Brasília – Tesourinha e temporal

BsB-014-Mensagem

 

Valéria del Cueto
Agosto de 2006
Saí da Ponta, deixei o Leme. Larguei o Rio…

Não se assuste. É só por um tempo, afirmo corajosamente tentando convencer a você e a mim.

Troquei de cenário. Estou em Brasília! Foi uma virada e tanto. Só me dei conta do tamanho da guinada lá pela oitava volta numa tesourinha da cidade.

Quer saber o que é uma “tesourinha”? É uma gíria carinhosa brasiliense para… Imagine um oito, símbolo do infinito. Então agora, coloque dois infinitos cruzados. Um oito em pé com outro deitado. Um laçarote duplo de asfalto.

Se enjôo em curvas simples e singelas como dos viadutos cariocas calcule, caro eleitor, o efeito de entrar na pista errada num eixo qualquer da capital  federal, e rodar, rodar, rodar, rodar, até refazer todo o percurso e… errar a saída novamente.

Beto Dock, meu amigo querido e “guia”, consegue esta muitas outras façanhas. E eu, mareadíssima, entendi o inevitável, se bem que não definitivo acontecimento: havia aterrissado em Brasília, trocado a maresia permanente do meu Leme, a brisa do Caminho dos Pescadores por aquilo que (acho) mais gosto de fazer: cinema. Neste caso, na direção de produção.

Tudo é novo e você sabe, se escrevo, é por que gosto do que vivo, vejo e aprendo.

Volto ao centro oeste. Procuro ar na falta de umidade. Cabelos e pele ressecados, litros e litros de água para tentar reequilibrar o organismo que se ressente da súbita mudança.

Respiro fundo, muito fundo em busca do cheiro de terra molhada que vem do que, temo, será a última chuva antes da seca que assola o cerrado a cada ano. Aqui, verão é seca, inverno quando chove. Julho é verão e as chuvas só aliviam a terra a partir de outubro, diz a lenda…

O trabalho do dia termina enquanto observo a chuva deslocada, fora de época. Ninguém em volta, acabou o “expediente”, ainda não começamos as filmagens.

Vejo os últimos carros saindo pelo portão. E tome barulho de chuva e calor.

Meu destino é certo: resquícios do tempo em que morei em Mato Grosso. Adoro chuva, ainda mais diante da incógnita. Quando será o próximo temporal? Sei lá… então, por via das dúvidas, vamos aproveitar, convenço facilmente a mim mesma.

Largo o computador, ultrapasso a sala de produção, invado a varanda e amplio meus horizontes. O céu é o limite, emoldurado por mangueiras, abacateiros, flamboyants e outras espécies nativas por quase todos os lados. Com chuva, muita chuva para molhar meu cabelos, escorrer pelo rosto, invadir decote a dentro fazendo cócegas nas minhas costas. Encharcar minha roupa, pingar da ponta do meu nariz e trazer uma conhecida e rara sensação…

Me sinto em casa, numa delas. Sozinha no paraíso, passeando entre as árvores ( cuidado com os raios, menina!) estou em paz.

Mesmo que ainda um pouco mareada devido as inevitáveis e infindáveis tesourinhas. Terror permanente que me perseguirá pelos próximos e longos meses…

Valeria del Cueto é jornalista e cineasta
liberado para reprodução com o devido crédit

Anúncios

2 comentários sobre “Brasília – Tesourinha e temporal

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s