A mágica do amanhecer – de Valéria del Cueto

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Texto e foto de Valéria del Cueto

Agosto, 2006

Quando acordo de manhã e abro a janela do lado do sol nascente os desenhos das folhagens do arvoredo ficam dançando na parede azul clara do quarto. Hipnóticos e inquietos parecem tentar ultrapassar os esquadros da janela antiga que delimita os espaços.

Pelo espelho em frente da cama vejo refletida a janela e as cores das mangueiras e abacateiros que compõem a paisagem incomum e privilegiada da Brasília que habito nesta temporada.

Ouço ao longe o barulho da vassoura do caseiro recomeçando, a cada manhã, sua tarefa infindável de recolher as folhas que caem aos montes no terreno da chácara do Lago Sul.

Levanto, escancaro as bandas da janela. Elas também querem participar da festa matinal e ficam num vai-e-vem ao sabor do vento ainda brando de inverno, clareando e escurecendo o ambiente.

A primeira imagem que vejo é a casa na árvore. E não é uma casinha qualquer não. Tem estantes, prateleiras, proteção ao redor da varanda. Uma mansão encarapitada nos galhos de uma velha mangueira.

Até agora só explorei a área pelo lado de fora. Pareceu-me um ótimo refúgio. Pela infra-estrutura, imagino as crianças no sobe e desce, usando o espaço como se fosse um reino a parte e particular.

É das travas de madeira que sustentam a plataforma onde a casa de brincadeira foiconstruída que se projetam mais dois apetrechos infantis: um balanço e um trapézio. Estes, eu já testei.

Pena que acabaram presos, recolhidos por ganchos para não atrapalharem a circulação dos carros que procuram na sombra da mangueira escapar do calorão brasiliense. (Mas eu não disse que era inverno? E daí? Estamos no centro oeste…)

Tentei protestar, mas fui voto vencido. Alguém usou um argumento contra o qual não pude replicar: “Afinal, você está aqui para transformarmos este lugar na base de produção de um longa metragem ou para ficar brincando no balanço da casa da árvore?”

Capitulei na ocasião, assim como capitulo agora. O sol subiu, os desenhos mágicos que dançavam na parede desapareceram. É hora de encarar o batente.

Até o próximo amanhecer, quando o espetáculo recomeça e eu estarei aqui, do camarote vip na minha cama, para aplaudir o show de novo…

Valéria del Cueto é jornalista e cineasta
liberado para reprodução com o devido crédito

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2 comentários sobre “A mágica do amanhecer – de Valéria del Cueto

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