O QUE OS OLHOS NÃO VÊEM…

De Valéria del Cueto

Julho de 2006
Tuc, tuc, tuc… ouço as batidas insistentes. Tec, tec, tec… essas, num ritmo diferente. O tuc tuc é o som da prancha quando o garotão tira a areia, grudada na superfície molhada, o tec, tec é o choque dos pés de pato, também úmidos que ele sacode ritmadamente.

O inverno carioca é insuperável. E, eu sei, você sabe do que estou falando… Eles estão indo embora. Eu, chegando. Como usam roupas de neoprene e batem queixo enquanto se aquecem ao sol de julho, imagino que a água está fria.

Se prepare: hoje vai ser assim, tudo na base da dedução. Estou literalmente deficiente. É sério. Normalmente tem conserto, porém por uma contingência médica hoje minha insuficiência visual está assim: exposta.

Explico. Sou míope, miopérrima, miopíssima. E, para fazer exame no meu oftalmologista,
amigo, colega e ex-nadador, tenho que ficar vinte e quatro horas sem as lentes de contato. “Bota os óculos”, você argumenta. “Não posso, ele está quebrado, por isso vou bater ponto no consultório”, esclareço, enquanto exercito meus outros sentidos aqui na Ponta do Leme.

“Água mineral, Guaraviton, cerveja, mate”, apregoa o vendedor que imagino ser um senhor carregando um isopor pendurado em cada ombro. Disse imagino, já que só vislumbro uma mancha cor de abóbora. Creio ser ela da camisa do mate. Laranja, como o uniforme dos garis cariocas.

Gritinhos de alegria e recomendações maternas chegam agora aos meus ouvidos. Mãe e filha adentram a areia, passam por mim e se instalam bem na beirinha da água. Minha irmã diz que ficar assim, quase beijando o mar, diminui a distância a ser percorrida, caso suas filhotas precisem de ajuda ou tomem um caldo.

Como não tenho filhos, nem coração de mãe, acho isso uma besteira. Prefiro ficar um pouco acima, para ter uma visão melhor das menininhas quando as duas se aventuram comigo no mar do Leme. Tenho uma técnica para reuni-las. Um assobio cujo significado é: parem tudo, meia volta e se apresentem aqui, juntinho a mim. Já!!!!!

Funciona, para espanto da mãezona das gurias. Pra começar, ela não sabe assobiar como eu. E não diga que, no entanto, ela enxerga, coisa que não posso fazer por vinte e quatro horas, pois lamento informar, ela também é míope…

Aperto bem os olhos na direção do mar, tentando adivinhar se há ondas e surfistas. Vejo vários pontinhos coloridos, mas sou incapaz de avaliar as ondas. O barulho do mar me informa que não há ressaca nem calmaria. Se necessitasse desesperadamente de uma definição marítima mais precisa, poderia ir até a água e sentir a força da correnteza. Se o mar está puxando, saberia que o mar está perigoso, com valas.

Mas já disse e repito: detesto água fria. Ela mata minha curiosidade e me limita no
espaço da areia bem quentinha, onde minha deficiência visual não me afeta: míopes são águias de perto. Por isso escrevo. É uma ótima forma de matar o tempo que falta para a consulta libertadora, após a qual poderei recolocar as lentes de contato e voltar á luz da imagem.

Usando uma metáfora, seria ótimo se pudéssemos resolver nossos problemas assim, simplesmente corrigindo o grau focal…

Filosofando: Considero que quase tudo pode, sim, ser resolvido quando conseguimos “focar”
nossas contradições e problemas.

Contra argumentando: É por que a solução deste “quase” em contraposição ao “tudo” talvez
não seja uma questão de nitidez, mas de ângulo. Mude o ponto de vista e assuma outra perspectiva.

Quem sabe não foi isso que foi isso que me faltou na vida, deduzo do alto da miopia
que me induz a tais pensamentos…

Da Ponta do Leme reconheço, quase surpresa, uma nova deficiência: a miopia estrábica de sentimentos…

Valeria del Cueto é jornalista e cineasta

liberado para reprodução com o devido crédito
Este artigo faz parte da Série “Ponta do Leme”

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