VOLTA AO LAR

CF-Oxum

De Valéria del Cueto

Dezembro de 2006

Hoje é sexta. São 4 horas estou na praia, em plena ponta. Do Leme, é claro! Mas não é um dia como os outros em que, daqui, filosofo, exercito minhas idéias poucas e/ou penso na vida…

Esta sexta é especial. É dia de louvação. Oito de dezembro. De agradecimento. Dia de Nossa Senhora da Conceição. De oração. Salve Oxum, minha mãe.

Não pratico o candomblé, mas hoje sou filha da santa: fita enfeitando, vela para iluminar, rosas amarelas para ofertar.

Tudo para louvar, muito pra agradecer. Certamente, sem a ajuda dela, não teria navegado nos meses secos do cerrado, no Planalto Central, nem conseguido superar a sensação de rejeição e desamor que reina no início desse tipo de travessia.

Não teria tido a paciência de tramar, junto com pessoas maravilhosas que se uniram nesse caminho, uma teia forte e resistente que pudesse catapultar as coisas incríveis que vivemos por lá.

Foi Oxum, sim, quem adoçou a força de Oxossi, o guerreiro que detesta injustiças que se abriga no meu eu masculino. Ela trouxe a serenidade diante dos absurdos cotidianos e o carinho para tentar consolar os carentes de qualquer tipo de amor.

A ela agradeço agora e sempre, a compreensão, ainda que tardia, de que nem todos estão cobertos de boas intenções, mas que, por pior que estas sejam, lá no fundo, ainda brilha uma luz vacilante (em alguns momentos) que, no final, ofuscará as dores, inibirá o sofrimento e nos guiará para nossos afetos verdadeiros.

A minha luz está aqui comigo. Refletida no melhor lugar do meu mundo. Ou melhor… sou, novamente, da Ponta.

Para daqui, olhando o oceano, ouvindo o barulho do mar, sentindo o sol dourar minha pele, o vento desarrumando insolentemente meus cabelos, esfregar meus pés na  areia e, através deles, trocar energia com meu lugar. Ele faz parte de mim física e mentalmente. Para ele trago minhas mágoas, nele comemoro minhas pequenas e grandes vitórias, com ele divido meus segredos.

Depois de tantos meses ausente, guardei meu retorno para esse momento de louvação à minha mãe Oxum, ao meu lastro de vida, a um renovar constante e independente da minha própria vontade, como aprendi neste ano que termina.

Trouxe flores, trouxe fita, acendi vela, tudo pra ela, sempre por ela. Mãe que encaminha, mulher que deseja. Como eu.

Não quero muito, só o que me é de direito. Por nascimento e, sempre, por opção. Me dê a Ponta, meu Leme e o mar, que já está de bom tamanho. Este lugar que é abrigo e repouso da minha alma.

Do resto, Oxossi, meu santo guerreiro e protetor das matas e florestas se encarrega.

Valeria del Cueto é jornalista e cineasta
liberado para reprodução com o devido crédito
Este artigo faz parte da Série “Ponta do Leme”

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