Do pó ao mar

 

DO PÓ AO MAR

De Valéria del Cueto

O mar do Leme hoje está como coração de mãe. Tem espaço para todo mundo. Depois da última ressaca a que expulsou dos
domínios marítimos até os mais afoitos e corajosos surfistas e comeu grande parte da areia no canto da praia deixando como recordação uma falésia de quase dois metros de altura, a paz voltou a reinar.

No meu posto de observação, localizado no alto do já citado paredão, aproveito o sol da tarde e procuro argumentos para me atirar
aqui de cima, esquiar parede abaixo e mergulhar nas ondas, até ultrapassar a arrebentação.

É lá que está o coração de mãe… Agora, um pouco a minha esquerda, mais perto ainda da pedra do Leme. Surfistas, body boarders e
uns dois metidos que nem eu, especialistas em dispensar acessórios e se “limitar” a despencar onda abaixo, aproveitam. A arrebentação está distante, o que garante uma boa área de manobra. As ondas não quebram, deslizam.

Enquanto isso, escrevo, descrevo e tento entender o que atrapalha o meu ímpeto esportivo. É um nada maior que tudo. Um ignorar
comprovado que me move há muitos anos.

Em algum momento, que durou uns 5 anos, no último século do milênio passado, fui atleta. Nadadora, mais especificamente falando.
Nesta época, para não ter dúvida nem sofrer, me treinei (como Pavlov) a nunca recuar fosse qual fosse a temperatura da água. Este condicionamento evitou grandes exercícios filosóficos cada vez que, na beira da piscina, meus impulsos
de rebeldia ousassem esboçar qualquer tipo de manifestação anarquista. Era água ou água.

Até o dia em que desisti da natação. Não foi por este motivo, a água fria. Mas foi contra ela que fiz meu mais antigo juramento: água
fria J-A-M-A-I-S. Por isso, não movo um músculo em direção ao mar que me seduz.

Limito-me a louva-lo, ama-lo e respeita-lo por toda a eternidade. Digo isso por que nem a morte há de nos separar. É para ele que
minhas futuras cinzas irão: sal para o sal, pó para a água. Quando isso acontecer, convenhamos, a temperatura da água não fará a menor diferença.

Por enquanto, evito maiores crises existenciais e choques térmicos. Empoleirada aqui na Ponta, nos alto da minha falésia
passageira e petulante, sinto-me testemunha ocular, quase matusalenica, das mudanças climáticas e ambientais em curso e visíveis a cada momento. Dona e senhora das visões apoteóticas e apocalípticas que a ressaca do solstício de inverno pode provocar aqueles que ousam explorar suas mais profundas intenções.

Valeria del Cueto é jornalista e cineasta

liberado para reprodução com o devido crédito
Este artigo faz parte da Série “Ponta do Leme”


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