Despedida, de Valéria del Cueto

de Valéria del Cueto

Julho de 2006

Eu sou da Ponta, sou do Leme e estou de partida…

Sentada na mureta, entre o quiosque e o início do Caminho dos Pescadores, sinto o vento que faz a curva na Pedra do Leme despentear os meus cabelos e estes fazerem cócegas na ponta do meu nariz em seus movimentos desordenados.

O mesmo vento que acabou com minha intenção de lagartear ao sol da tarde, esticada na canga enquanto posso.

Pra não perder a viagem vim andando pela areia em direção ao final da praia. Geograficamente a paisagem foi alterada pelas últimas ressacas. Há um paredão de areia no canto e dá para ver que, na maré cheia furiosa da ressaca, a água chegou a atingir o pé da escada que leva ao Caminho dos Pescadores.

A Ponta está cavada. As pedras que a margeiam expostas com sinais de limo que poucas vezes aparecem acima da linha da água. A maré está baixa. Baixíssima. As crianças aproveitam para procurar mariscos e mexilhões na área.

Não sou a única que aproveita a paisagem. Na grama um ajuntamento de mendigos também tenta se aquecer ao sol. Eles usam uma sombrinha para criar uma barreira contra o vento inclemente. Não têm roupas de inverno. Estão de camisetas e bermudas. Como eu sei? Por que os vejo arejando os cobertores velhos com que tentam, visivelmente sem sucesso, espantarem o frio. As duas sombrinhas são as barreiras iniciais.

Se você espera críticas à presença deles no local, lamento, mas vou ficar devendo. Por que os entendo. Sendo a Ponta um local público não há por que impedir alguém de freqüentá-la. Seja lá quem for. Quem disse que a miséria também não tem direito a beleza e a natureza?

Uma das meninas que brincava entre as pedras sobe em direção ao grupo. Dá pra ver que ela está regelada pelo vento que bate em seu corpo molhado. Vejo sempre esse pessoal por aqui e analiso a possibilidade de descobrir quem são.  Mas isso leva tempo. Tempo que, acabo de lembrar, não tenho…

Como já disse estou de partida. Vou em busca da garantia de mais uma temporada no Leme.Viver aqui tem um custo e faço o possível para manter meu status quo: o sustento do meu sonho geográfico.

Os integrantes do grupo de sem teto conversam animadamente ao lado como se eu não existisse. Afinal, o que é este ser regelado que insiste em tentar capturar o calor do sol, com os cabelos enlouquecidos ao vento, o pequeno caderno onde escrevo furiosamente espalhando tinta verde pelas páginas que se agitam?

Sinto-me tão nada quanto eles. Meu sentimento em relação a opinião alheia, confesso, me  aproxima ainda mais dos meus vizinhos: não estou nem aí para os olhares de estranheza dos pescadores que entram e saem do caminho que rodeia a pedra. Que pensem o que quiserem dessa mulher e seu pequeno caderno que ignora o perigo que, dizem, advém dos sem teto ali do lado.

Nada tenho a perder, a deixar levar. A receber, sim. Os registros da Ponta que levarei na memória, meu caro leitor, não têm classe social. Ricos e pobres, vestidos ou desnudos, felizes ou infelizes. Quem vem à Ponta sai daqui com uma imagem única e indelével de um ponto inigualável no globo terrestre.

De peito aberto e sã (in)consciência é impossível não se saber um ser, senão único,privilegiado. Por existir nesse tempo e nesse lugar.

Bem aqui, na Ponta do Leme.

Valeria del Cueto é jornalista e cineasta
liberado para reprodução com o devido crédito
Este artigo faz parte da Série “Ponta do Leme”

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