Tempo de guerra, tempo de paz


DIVINO-01

* Uma alegoria do planalto central

Texto e foto de Valéria del Cueto 2006

O que me atraiu foi a ressaca. Majestosa e indomável. Lambendo o Caminho dos Pescadores, remetendo ondas em série contra a lateral da Pedra do Leme, castigando o paredão e expulsando, sem direito a argumentação, os pescadores que freqüentam o caminho.

A fúria é tanta que a água acumulada entre a mureta e a pedra transforma-se em cachoeira, saindo dos vazadouros existentes para casos raros como este. A Pedra e o caminho choram. E as ondas batem e explodem cada vez mais alto. Não é só a pedra que sente os efeitos da virada do mar.

A faixa de areia encolheu diante do avanço poderoso das ondas. Tive que esticar a canga bem próxima da rede de vôlei. A área é perigosa e, se uma bolada me acerta, não tenho nem direito a protestar. Nada de chiadeira por que sei que estou na zona do agrião.

Se me afastar em direção ao mar, corro o risco de ser atingida por uma onda mais audaciosa, como as que vejo batendo na Ponta.

Opa, desvio dos efeitos colaterais de um bloqueio a uma tentativa de cortada mal sucedida. É ponto! Não faço parte do jogo, mas comemoro o fato de não ter sido abalroada. Começo a prestar atenção. A partida é de futevolei e, pelo pouco que pude observar, a coisa está tão agitada quanto o mar, nosso vizinho.

Uma das duplas se desentende. Discute por causa de uma defesa mal feita. Ponto para os adversários. Na bola seguinte, outro erro. Desta vez na devolução. A discussão come solta. Parece uma partida decisiva, final de campeonato. Um dos jogadores abandona o campo. O outro continua reclamando. A partida é suspensa.

A namorada de plantão aguarda o retorno do reclamão que, mesmo sendo freqüentador assíduo, prefere um banho de chuveiro a enfrentar a ressaca. Com ela não tem apelação. Entrou, sai cheio de areia, num estado próximo ao bife à milanesa.

Uma nova partida começa de um lado. Do outro, o mar reclama, grita, resmunga, se revolta. Eu ali, no meio. Como na vida, quando a paz parece criar uma redoma invisível. Momentânea…

Sinto a brisa, me estico toda. Deixo o sol de junho banhar a maior área possível do meu corpo. A Pedra chora novamente liberando a água acumulada que invadiu o caminho dos Pescadores. Aqui, na Ponta do Leme o mundo pode não estar em paz. Mas, nesse exato momento, evidentemente, eu procuro estar…

Valeria del Cueto é jornalista e cineasta

Este artigo faz parte da Série “Ponta do Leme”

 

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