Justa causa

PL005-Pedra-e-Silueta

Pro Irving

                                                                        de Valeria del Cueto, agosto de 2006

“O……lha, sera que ela e moça? Sera que ela e triste?”

Está tudo meio desarrumado, mas com um disfarce irreal de tranqüilidade.

“Sera que e o contrario? Sera que e pintura, o rosto da atriz?”

Entao, vou começar pelo que poderia ser o final. Saio de casa, a dois passos do ultimo hotel do bairro. Na esquina que me leva à praia. Vejo uma cena incomum, mesmo para os padrões do Leme.

“Será ela dança no sétimo céu? Se ela acredita que e outro país?”

Na sua área mais lúdica, em frente são bar do Coutinho, Arouca e a ultima linha de frente do comercio da região.

“E se ela só decora o seu papel?

E se  eu pudesse entrar na sua vi………..da…”

De um carro, parado em frente a portaria do hotel, Milton Nascimento faz coro aos berros para quem cantava, de dentro do veículo, usando um porta óculos como microfone e fazendo pose de grande interprete, a musica “Beatriz”, do “ Grande Circo Místico”, de Chico Buarque e Edu Lobo.

“Olha, sera que e de louça? Sera que e de e ter?

Será que e loucura? Será que e cenário, a casa da atriz?

Se ela mora num arranha-céu? E se as paredes são feitas de giz?”

“Diminuí o passo e olhei na direção do hotel, onde só havia duas pessoas na portaria e ninguém mais: o porteiro e o apanhador de malas. Um, mais sério, com ar surpreso. O outro, largo sorriso, mas mantendo a postura, se divertia com a situação.”

“E se ela chora num quarto de hotel?

E se eu pudesse entrar na sua vida…”

Continuei andando e voltei novamente a atenção para o carro: um uno Mille branco. Atravessei para o outro lado da rua e vi que a placa era de São Gonçalo. Eu não era a única que prestava atenção: motoristas do ponto de táxi, entregadores das mercearias, caixas, balconistas, o pessoal do salão de beleza… a plateia era grande do outro lado da rua.

“Sim,  me leva para sempre, Beatriz. Me ensina a nao andar com os pes no chao

Para  sempre e sempre por  um triz”

A música terminava, a serenata também.

O cantor esperava um sinal de aprovação do homenageado. Estático, sem esboçar reação, acho que este pensava na repercussão do caso no hotel. Ela poderia render até sua demissão.

“Ah, diz quantos desastres tem na minha mão

Diz se e perigoso a gente ser feliz”

Mas também, que diferença faria?

Daqui a alguns anos, a perda do emprego na portaria do hotel estaria esquecida e superada, enquanto (posso dizer por experiência própria) os primeiros acordes da musica ofertada, sempre o transportariam.

Para um dia que prometia ser frio, acabara ensolarado, numa esquina do Leme. Um momento mágico seria revivido eternamente na sua memória.

“Olha, será que e uma estrela?   Será que é mentira?

Será que é comedia?   Será que é divina a vida da atriz?

Se ela um dia despencar do céu? E se os pagantes exigirem bis?

E se um arcanjo passar o chapéu?

E se eu pudesse entrar na sua vida…”

E daqui, da Ponta do Leme, onde narro, descrevo e disserto sob um tímido sol de outono recentes e significantes acontecimentos do bairro descubro que, ao começar pelo final, prefiro encerrar por aqui mesmo. Deixando você, meu leitor, sem início nem meio, apenas com este fim. Por que diante da possibilidade involuntária – e quase mágica – de colher e registrar a futura lembrança alheia, não tenho mais nada a dizer.

Por enquanto…

Este artigo faz parte da serie “Ponta do Leme”, Valéria del Cueto é jornalista e cineasta

 

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