Las cosas pintan

PL006-Entardecer-Copa

texto e foto de Valéria del Cueto, fevereiro  de 2006

Hoje não é sexta, é sábado. Não é verão, é outono. Três da tarde, praia vazia, parece que hoje é ontem.A previsão é de que está chegando uma frente fria. Neve em São Joaquim, geada no sul. O dia amanheceu nublado, com cara de rendido. Braços abertos para o mau tempo previsto.

Só que, aqui é o Rio, de janeiro e as coisas nem sempre são como devem ser. Basta um sopro, um vento de “través” e lá se vai o que era óbvio e, teoricamente, inevitável.

No início da tarde saí para dar uma volta: calça de moleton, camisa de algodão de manga comprida. Modelo básico para uma voltinha clássica pelo bairro.

Café no copo com pão com manteiga na chapa, na padaria da esquina, a Duque de Caxias, uma passada rápida na banca do Santo para olhar as capas das revistas semanais, depois a esticada ao banco eletrônico para sacar um troco para o final de semana.

No meio do caminho, aquele imponderável citado no início deste texto, se manifestou: a brisa virou vento e quando dobrei a esquina da Antônio Vieira, em direção a agência bancária da Atlântica, já sabia que a ventania havia mudado o panorama e minha rota também.

Adivinhem? Hoje é sábado, meio da tarde, e estou aqui. Sempre. Quase dona do pedaço. Dividindo este enorme latifúndio praiano com poucos outros que, como eu, acreditam no aproveitamento extremo e permanente do sol que nos aquece.

Como nós, o mar está calmo na Ponta do Leme. Também espera a virada do tempo, mas agradece o refresco, a pausa revigoradora, antes da tempestade… Os sinais estão a nossa volta. No horizonte, ao sul, a bruma antecede as nuvens mais pesadas.

Se fosse em Mato Grosso, no cerrado ou no pantanal, o céu estaria vermelho. Prenúncio de mudança brusca no tempo.

No Rio é assim. Nem pule é dez. Tudo pode se transformar, ser reinventado, reinterpretado. Estamos acostumados a enfrentar o inexplicável: seja no futebol, onde subitamente nos descobrimos com dois times cariocas na final da Copa Brasil. E logo quais: Flamengo e Vasco.Seja na guerra declarada que assola São Paulo, expande seus boatos até o Rio, mas não causa maiores danos.

Ouvi dizer que o que nos salva é a pluralidade. Em São Paulo, manda o PCC. Aqui, as facções são várias e não se entendem, portanto não se coordenam, deixando de ter assim, o poder de fogo concentrado da organização paulista.

O que dizer? Vive la diference. Pelo sim, pelo não a cada ameaça ou boato, fecha universidades, o comércio, a polícia desaparece das ruas e tudo continua como antes.

É a brisa, é o vento de vez em quando a tempestade. Mas nenhum deles deve fazer com que percamos o olhar, a oportunidade e o sentimento. Basta uma mudança imprevista na meteorologia prevista, para que apareçam o sol e a chance de termos a oportunidade de aproveitarmos momentos como este, que me trouxe à Ponta de Leme e nos levaram até você.

Valeria del Cueto é jornalista e cineasta , liberado para reprodução com o devido crédito

Este artigo faz parte da Série “Ponta do Leme”

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