De todas as bandas

texto e foto de Valéria del Cueto, fevereiro de 2006

De um lado, mineiros. Do outro, argentinos. Não há mais paraíso isolado na face da terra… Se está assim na Ponta, imagina no resto da cidade… Não vou nem falar somente das praias que, ultimamente, sofrem invasões muito piores e tão intensas quanto.

Não, não é preconceito. Os rapazes mineiros jogam frescobol e, para não prejudicar um dos participantes da
peleja que, pela posição do sol, teria sua visão ofuscada, a dupla conseguiu se posicionar de uma maneira que 89% das bolas erradas e perdidas virão diretamente para o alvo formado por minha canga e esta que vos descreve a
situação. Paciência e tolerância.

Pelo menos, eles não seguiram o exemplo de seus animados e gastronômicos conterrâneos que trouxeram um porco – isso mesmo, um porco – cavaram um buraco e pretendiam assá-lo em pleno final de semana, lá no Leblon.

Apareceram na televisão, ficaram famosos na cidadezinha de origem, mas pagaram o maior mico para o restante do Rio e do país. E não é que a mineirada ainda ficou ofendida quando “as autoridades” intimaram a turma a desmanchar a churrasqueira e ir assar seu leitão em outra freguesia?

Pronto! A segunda bolada me atingiu. Mais uma, aviso, e eles terão que ir buscar a bolinha lá pras bandas das ilhas Cagarras. É bom que algum deles saiba nadar mais do que eu… Convenço a dupla a procurar outra quadra na praia deserta que habitamos e deito de bruços, numa guinada de centro e oitenta graus.

Ô, ou… argentinos. Uma família. A filha adolescente usa um biquíni com estampa da bandeira brasileira. A mãe, de bustiê e short de lycra, toma chimarrão numa cuia. A menina caiu de boca num pacote de biscoito Globo, nosso bom e velho biscoito de polvilho, que freqüenta a praia carioca a gerações. Salgado. Ao lado das cadeiras alugadas, o kit portenho tem de tudo: baldinho, pazinha, filtro(s) solar(es), raquetes de frescobol (!) e … a bolinha. Também tem a garrafa térmica e a já citada cuia de chimarrão.

Cheguei ao meu limite. Eles também começam a jogar frecobol, mas, assim como os mineiros, na perpendicular da linha do mar. Mais do que um recibo, já que a minoria carioca costuma praticar o esporte jogando paralelamente a água, eles nos dão a impressão de que são donos do pedaço.

Ao menos durante o verão, por que todo mundo sabe: no resto do ano, a praia é nossa. Só nossa e, nela,
frecobol se joga na beira da água…

Bom, vou terminado este artigo, não sem antes informar que acabo de ser interrompida, nas minhas escrevinhações, por um rapaz que me pede para cuidar de suas coisas, enquanto dá um mergulho.

Em tempo: pelo sotaque, ele é gaúcho. Por seu comportamento no mar, pegando algumas ondas de peito, sabe o
que está fazendo. O mundo ainda não está perdido, diriam meus ancestrais, do mesmo costado.

Valeria del Cueto é jornalista e cineasta liberado para reprodução com o devido crédito. Esta  crônica faz parte da Série “Ponta do Leme”

 

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