O rochedo e o mar

 

Embarcação e pedra

de Valéria del Cueto

março de 2006

Ai, ai… Esta é a Ponta, estou no Leme. É sexta feira. Não uma sexta qualquer. Não é dia de contemplação, apesar da atração exercida pela ressaca que faz a alegria dos surfistas e contribui para desviar minha atenção do motivo que me trouxe à minha base meditativa. “Caraca! É muita onda”, ouço o garoto entusiasmado diante do mar alto… Será o som retumbante do mar revolto que dará o ritmo deste artigo.

Artigo? Pois é, isto que você lê é o trabalho que avaliará nossa atuação na matéria do professor João Batista Vargens, Antropologia do Carnaval. O enredo é livre, contanto que não saia do tema: Carnaval.

Engraçado, para a maioria do mundo este é um assunto, por assim dizer, sazonal: é impossível viver num eterno período carnavalesco. Folia, liberação e fantasia não combinam com durabilidade. São necessárias, mas por um curto espaço de tempo. Afinal, tudo tem limite e, há séculos, definiram que o reinado de Momo seria circunscrito aos três dias de folia.

Bom, faz tempo isso. E, de lá para cá, muita coisa mudou. Principalmente pelas bandas de cá. Uns dias antes é o pré-carnaval que dura o verão inteiro. Como ficam os blocos que renascem? Uns antes, outros depois das datas estabelecidas. Coisa de agenda, sabe como é? Esticamos mais um pouco a festa.

NA QUARESMA

Finalmente, o supra sumo da flexibilidade: uma cidade da fronteira do Rio Grande do Sul, Uruguaiana, decretou que seu carnaval será duas semanas após a data oficial. Por questões óbvias e bastantes justificáveis: descobriu-se que o tradicionalíssimo e disputado desfile das escolas de samba da cidade poderia atrair turistas de três países: Argentina, Uruguai e, é claro, do Rio Grande do Sul, Brasil. Contanto que a festa não fosse realizada no… Carnaval!

A notícia mais recente que tive de lá é a de que 25 mil pessoas acompanharam, a cada noite, as exibições regulamentares feitas pelas agremiações locais (lá, cada escola desfila duas vezes, a junção das notas diz quem é a melhor). Para registro: A campeã, no desfile de 2006 foi “Os Rouxinóis”, escola fundada há 53 anos. Ano passado, o título ficou com a “ Cova da Onça”. Nos últimos dois anos, a “Ilha do Marduque” ficou com o vice-campeonato. A coisa é séria!

TEM DIDIM

E foi pensando em Uruguaiana, e no retorno turístico e econômico da festa por lá, que voltei ao Rio onde o reinado carnavalesco inicia-se muito antes de fevereiro para aqueles que trabalham na sua montagem. Aliás, começa cada vez mais cedo. Em alguns casos, anos antes, com a criação de enredos e as negociações de patrocínios.

Opa! E onde ficaram os preceitos primordiais da celebração: “folia, liberação e fantasia?” Bom, ainda existem, pelo menos para quem compra o pacote. Eventualmente, cruzam pelo cotidiano dos trabalhadores da indústria do carnaval, nas quadra das escolas, nas rodas de samba… Mas, para estes, os dias de desfile representam muito mais do que a simples gandaia. Carnavalizar, sim, mas com um objetivo: a vitória.

E, para alcançá-la, não há mais espaço para amadorismo e improvisação. A coisa é séria, virou uma industria. Move centenas de milhões de reais. Um fenômeno nascido e criado no Rio de Janeiro e disseminado para outros rincões brasileiros.

QUASE UM SÉCULO

Há que se estudar sua evolução e seus desdobramentos. Em 2007, ano dos Jogos Pan Americanos, serão 90 anos da  gravação “Pelo Telefone”, de Donga e Mauro de Almeida, considerado o marco zero da história do samba, estilo musical que gerou, através de suas escolas, as de samba, a criação desta atividade sui generis, respeitada e cantada no mundo inteiro.

E cá estou eu, no Leme, na Ponta, fazendo minha prova de Antropologia do Carnaval, para o curso de Gestão de Eventos e Festas Carnavalescas, da Universidade Estácio de Sá. Em plena praia, ouvindo a ressaca e pensando no futuro próximo.

ACADÊMICOS DO SAMBA

Nele, e nos parâmetros e rituais da lida acadêmica. Afinal, o que o Carnaval tem a ver com Universidade? É duro dizer: tudo, desde que virou indústria. Agora, querem dissecá-lo, entendê-lo e classificá-lo. Quando era apenas uma manifestação cultural carioca, não merecia esta atenção. Mas, como bom fenômeno que é, extrapolou as barreiras da “inteligenzia” e está ocupando seu lugar nas prateleiras acadêmicas.

Espero, que sem a menor cerimônia. Pretendo ser testemunha de uma batalha sem regras. Quero ver como a rigidez e a sisudez da academia lidará com a rebeldia carnavalesca: classificação, catalogação, enquadramento, teorização….

O carnaval e o samba levaram 89 anos para chegarem à universidade. Saíram de seus longos aprendizados nos ensinos básico e fundamental com algumas lições absorvidas e nesta caminhada, conseguiram revolucionar as escolas e seus conceitos por onde passaram. Agora, é esperar para ver e, se possível, botar alguma lenha nesta fogueira.

TERCEIRO GRAU

Deixei de lado minha carreira acadêmica depois de duas tentativas frustradas de cursar as faculdades de Comunicação e Administração. Achei que não seria ali que me ensinariam o que eu queria aprender.

Voltei aos bancos universitários para integrar a primeira turma do Instituto do Carnaval. Sei que faço parte de um momento histórico e único de uma das maiores manifestações culturais deste país. Não estou aqui só para receber ensinamentos mas para debater, experimentar – esta é a palavra –, construir e testemunhar o encontro do Carnaval com a Academia. Espero que dê samba…

Olho o mar revolto e a pedra. E, daqui da Ponta, desafio você, leitor, a definir quem é o mar e quem é o rochedo nesta nova fase da história do carnaval. Meu papel eu sei qual é: sou o marisco. Agarrada à pedra, dependo do mar para sobreviver enquanto torço pela folia e pela alegria. Elas ainda resistem impolutas ainda resiste na batida do coração que marca o ritmo das baterias que animam a maior festa brasileira.

Este artigo faz parte da série “Ponta do Leme”

Valeria del Cueto é jornalista e cineasta

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