ASSIM NÃO VAI FICAR

 de Valéria del Cueto

março de 2006

 Estou na Ponta, do Leme. Sol, mar, montanha e areia. Fugindo da vida. Literalmente. Acordei no meio de uma catástrofe doméstica. E, quando pude, corri  pra cá.

Já sei, você está se perguntando como é que alguém que mora sozinha pode ter uma catástrofe desta categoria em andamento enquanto dorme? Fácil, apesar de confesso, pelo menos para mim, inimaginável. Basta que sua área interna seja invadida por uma obra que ocupa o respectivo espaço da sua vizinha de térreo… Ouvi barulhos estranhos durante a manhã, enquanto dormia, mas não liguei, na ocasião, o nome a possibilidade… Iludi-me achando que o barulho era extra muro…

Quando acordei, às onze horas, depois de uma virada de trabalho na gincana do edital de patrocínio cultural dos Correios, e abri a porta que me liga aos primeiros seres animados a quem costumo dar bom dia, a cena era a seguinte: vasos de plantas deslocados, cobertos de por jornais e, por cima, restos da raspagem e lixação (?) da parte superior do muro divisor das áreas de serviço do térreo do edifício.

Uma beleza…

Plantas quebradas, vasos cobertos de pó da raspação, o caos instalado. Se planta respira pela folha, tínhamos ali uma tentativa de assassinato vegetal em massa. Na minha casa, no meu pretenso jardim, enquanto eu dormia…

Bom, junte-se a este filme catástrofe o cheiro sintético insuportável de tinta, massa, ou coisa que o valha, ao qual sou alérgica. Poderia ser menos dramático se, uns dias antes, tivesse começado a tomar o remédio mas como adivinhar a data do envenenamento?

Bom, o desenrolar da novela, dá para imaginar. Quer, dizer, menos a surpresa do penúltimo capítulo: a parede ficou punk: um pedaço zero bala ( a parte construída) e outro com marcas e cicatrizes de anos de intempéries. Tudo pintadinho de branco. Aliás, minha área ganhou mais um toque colorido:Tem “branculejos” (azulejos são azuis, segundo um membro infantil da família, quando é branco é branculejo), e parte das paredes pintadas de rosa, um outro tom mais amarelado, gelo clássico e agora mais branco singelo,  desta vez no muro…

Já sei. Estão curiosos. Confesso, tenho tentado ser zen, mas parti para a briga, pelas razões que enumero agora:

1)    não fui informada que iriam trabalhar naquele dia ( sabia da obra, mas oficialmente ela estava interrompida até segunda ordem)

2) Invadiram meu espaço terrestre e aéreo,

3) mexeram com as meninas,

4) o troço está horroroso.

Detesto remendo. Acho que ou a gente deixa o objeto (no caso o muro) inteiro e bonitinho, ou então é melhor partir para outra solução. Um aspecto rústico quem sabe? Sábias palavras que valem para muita coisa na vida. Mas, no momento, sinceramente, isso não me consola.

Apesar do céu de brigadeiro aqui em cima da praia onde escrevo, na Ponta do Leme, ao longe, para os lados do Arpoador, vejo nuvens pesadas e cinzentas. Parece que elas se anteciparam e cobriram minha nesga, que você vê na foto que ilustra este artigo.

Paciência, tento me auto-aconselhar…

Agora, só me resta cuidar das plantinhas depauperadas e lutar, até onde puder, para recuperar a “auto-estima” do meu jardim, desnudado e achincalhado. Também torço para que este muro não seja uma barreira intransponível entre minha vizinha (que é muito gente boa, diga-se de passagem, e – creio – tão vítima desta conjunção de desencontros e mal entendidos quando eu) e esta que vos escreve, em busca de tranqüilidade.

Valéria del Cueto, da Ponta do Leme

PS:Assim-nao-vai-ficar

 Valeria del Cueto é jornalista e cineasta

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