A PEDRA É A PONTA, OU A PONTA É NA PEDRA?

A PEDRA É A PONTA OU A PONTA É NA PEDRA texto de Valéria del Cueto

fevereiro  de 2006

Esta é uma questão importantíssima para uma sexta-feira. (Sexta? De novo? Pois é, mais uma…) cheia de visitantes, até na minha área, habitualmente tão calminha… O dia 1 da contagem regressiva. Amanhã tem Rolling Stones.

Daqui vejo a estrutura do palco, no contra luz das 4 da tarde, e sinto os primeiros efeitos da horda que virá. Luzes se acendem e começo a ouvir ao longe o som do palco, ainda sufocado pelo som das ondas. Deve ser teste dos equipamentos..

NO MAR

No mar, um navio da marinha e um petroleiro. O petroleiro espera a maré encher para entrar na baia de Guanabara. Do alto do Forte do Leme dá para ver como é estreita a entrada da baia. Há um movimento incomum de barcos e lanchas no horizonte. Não, não é só no mar. O movimento incomum é generalizado.

Este é o penúltimo dia do horário de verão, o último final se semana antes do carnaval, véspera do maior show da banda de rock número um do mundo. É pouco? Para tornar a imagem perfeita, o sol é o senhor absoluto do céu, depois de dias de chuvas, mormaço e tempo nublado.

Existem sinais, digamos que comportamentais, para atestar o fato de que grande parte dos participantes deste programa básico de verão não é local: O corredor puxa muito na passada e está branco demais para ser habitué. Pra que acelerar, quem corre sabe, tem que manter o ritmo. As pranchas de surfe são inadequadas e desnecessárias, diante do mar minguado que se apresenta. Barracas uniformes de hotéis da Atlântica abrigam visitantes que procuram proteção… Bom, vendedores ambulantes é o que não falta. Estão fazendo aquecimento para o dia de amanhã.

NA TERRA

Mas esperem aí! Eles chegaram até nós. Invadiram nossa praia com uniformes azuis, capacetes amarelos e estruturas de andaimes. No calçadão, junto ao quiosque, já tem uma torre montada, devem ser postos de observação da polícia.

Ainda há paz por aqui. O mesmo não posso dizer das imediações do Copacabana Palace. É um frenesi. Fãs e fotógrafos com super teleobjetivas, todos de pescoços duros, olhando e apontando seus canhões e esperanças para as janelas das suítes reservadas para a banda inglesa. E os roqueiros não decepcionam. De vez em quando dão um tchauzinho pra turma do gargarejo, arrancando gritos e justificando a paciência dos fotógrafos.

Temos trabalhadores de vários níveis e padrões no staff do show. Há, no mínimo, dois comportamentos padrões entre os contratados: os que fazem sempre e, portanto, consideram as tarefas apenas rotina e os que precisam mostrar que estão na produção, afinal, qualquer função na montagem do circo é um ponto ultra-positivo no currículo.

NO AR

Poxa, agora que o som estava se integrando a nossa paisagem…. parou. Foram apenas duas músicas, não dá nem pra chamar de aperitivo, foi, assim como raspar o fundo da panela. O prato principal fica para mais tarde. Antes, vamos aproveitar o dia e observar o movimento.

Enquanto algo não acontece, além do barulho dos helicópteros que cortam o céu azul e sem nuvens, volto a me perguntar, olhando a paisagem: A pedra é a ponta, ou…

Valeria del Cueto é jornalista e cineasta

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