A vingança do gato preguiçoso

A vingança do gato preguiçoso
05/12/2005

Estou na Ponta. Estou no Leme, novamente. Com o barulho do mar chiando nos meus ouvidos bem baixinho seu vai-e-vem. Segundona. Sou a imagem da vingança do Garfield, que odeia segunda-feira.

Pensei que na última viagem tivesse acontecido um cataclisma. É, a coisa foi séria. Como se todos os defeitos que nos orgulhamos de não ter, subitamente começassem a se manifestar. Primeiro, foi o show com Alexandre Pires, Alcione e outros mais. O Leme amanheceu ao som ensurdecedor de todas as buzinas do Rio de Janeiro. Quem ousou passar por perto disse que parecia reveillon.

Pessoas cruzavam o túnel a pé, os flanelinhas liberando o estacionamento em todo o calçadão do bairro. Um inferno. E tome buzina Por que ninguém andava. A única diferença para o 31 de dezembro, me contaram, é que o povo não estava de branco, uniforme exclusivo da virada do ano.

EU JURO QUE NÃO VI

Não posso assinar em baixo do que conto. Confesso, não botei o nariz para fora de casa. As buzinas me bastaram para indicar que o meu oásis se resumiria ao apartamento. Terminei de ler uma policial noir e ataquei os destroços da minha geladeira combalida. Isto foi num feriado.

Domingo a sinfonia pós-moderna das buzinas começou de novo. Chego a pensar que é treinamento pro verão. Alguém me lembra da Travessia dos Fortes. A festa é nossa e resolvo ir até lá. Em busca do meu passado. Só alcanço a Ponta, onde já estão entregando as medalhas para os nadadores, lá pelo meio dia. As buzinas diminuíram, a preguiça quase me pegou. Mas fui lá. Rapaziada sarada, turma saúde. Ouço entre os vencedores das inúmeras categorias, nomes do meu tempo de atleta. Saí jurando que um dia ainda volto para uma piscina. Quando? Só Deus sabe…

Ando pelo calçadão, livre dos carros entulhados do feriado anterior. Ironicamente, o único lugar cheio de automóveis estacionados de forma irregular é o mais proibido de todos: em torno da agência bancária. Nenhum guarda ou policial por perto para punir os infratores.

A conta no zero. É ela que me faz adotar a vingança do Garfield e estar na praia em plena segunda feira. No caminho par a praia outra irregularidade: toda pista da orla ocupada por ônibus e caminhões, como se o Leme fosse o lugar de retiro dos veículos pesados cariocas na hora do almoço. Tá tudo dominado.

PROTESTOS VEEMENTES

Todo início de verão é assim. A primeira carta reclamando da desordem urbana no bairro, provocada sempre por “estrangeiros”, já foi publicada. Outras, certamente virão, até que recuperemos parte da nossa paz ameaçada. E, para isso, usamos todas as armas. A imprensa, reclamação junto às autoridades do trânsito, Guarda Micipal, PM, etc, etc…

Cada um faz a sua parte. Incomoda como pode. Até eu, ainda na praia, escrevendo sobre a vida, acabo participando. Em casos como este, um pouco não é tudo, mas é muito.

PONTO DE VISTA

Confesso que passa pela minha cabeça uma certa culpa. É fácil falar na minha posição. Deitada numa canga, em plena segunda feira, olhando o motivo da minha crítica quando dou as costas para este marzão. Separada deles, dos veículos pesados, por toda a extensão de areia existente entre o oceano e o calçadão.

Tudo bem, o que posso fazer se este local é a única vantagem real que ainda cultivo na vida? Lutar, por ele. Preservar a Ponta do Leme, tratar bem quem me abriga e acolhe. Esteja na posição que estiver, de frente ou de costas para a vida. Miau…

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