E o rapa levou…

Areia 121220 159 pipa e travetexto e foto de Valéria del Cueto

novembro de 2005

 Famintos, sujos, indigentes, pedintes. Como tantos outros espalhados por todos os lugares. Pedir pra quem dar um fim num vira-lata indesejado? Pra ele, sem eira nem beira igual ao cão, sem serventia ou valor. Dá-se um trocado e a consciência fica em paz. Um serviço como outro qualquer. Para “dar um jeito” quinze reais está de bom tamanho, é o vale-vida do animal.

O que ninguém esperava é que desamor atraísse dissabor e, assim, menino e cão virassem um só. E, pelo cão, o garoto faz quase tudo. Abre mão do seu cobertor, que passa a esquentar o animal sob a marquise que abriga menino e cão, cão e menino. Um colega lembra que conhece a moça, veterinária do bairro. Ela garante vacinas, consulta, ração e banho para o novo agregado. Não dizem que ele é o melhor amigo do homem? Sua comida, pedida, gelada, servida no alumínio, passa a ser dividida. O melhor para o cão, seu amigo mais fiel.

FAMÍLIA

A organização familiar do menino, seu cão – e os outros como ele – que se esforçam para atender as necessidades básicas do animal, motivo e ação de todas as decisões da rapaziada, chama a atenção de outra moradora do Leme.

Para colaborar com a frágil manutenção da ordem alcançada, ela doa para os meninos velhas contas, fio e bijuterias semi-desmanchadas. O lixo começa a se transformar. 

Alguns passantes compram o produto do trabalho dos meninos que procuram se aprimorar: enquanto um cuida da banca, instalada no chão coberto com uma manta limpinha e cuidadosamente esticada – bem diferente do pano velho e desleixado dos primeiros dias –  outro arruma um novo emprego, entregando marmitas na área. A bóia está garantida.

PECULIARIDADES

Este Leme é um bairro único…  Mais um nativo resolve ajudar. Começam as aulas de confecção de colares, brincos e pulseiras. O que é produzido em classe irá para uma exposição de final de ano, afirmam orgulhosos os novos artesões. O negócio prospera e a decisão é comprar matéria prima para fazer mais peças. Excursão ao Saara. Não pra roubar, mas para tratar de negócios, comprar matéria prima…

O menino do cachorro, com o fruto da venda dos adornos e da entrega das marmitas, aluga um barraco no morro da Babilônia. Alex, o cachorro, explica ele cheio de orgulho, tem casa para morar. Não precisa mais passar o dia na rua.  O menino sim, para garantir o sustento.

O tempo passa, a população é flutuante. Os negócios progridem, entre sucessos e desventuras. A pior delas, a traição. Fugiu com o salário do amigo e a “féria” da barraca. Deus vai cuidar dele preconiza com olhos tristes e ar filosófico, o vendedor, mudando de assunto para contar, cheio de orgulho, que as vendas estão a pleno vapor. 

VIRADA

Uma nova, digamos, contingência da vida, mudou radicalmente o perfil do negócio. Foi no aniversário dele, dia 14 de setembro. Foi o maior presente… 

Um dia nublado, as mercadorias expostas no beiral do antigo banco –  que foi para a Princesa Isabel – para prevenir da chuva eminente. Baixou o rapa. Não deu tempo de fazer nada. Levaram tudo. Sem direito a recibo ou qualquer comprovante do recolhido. Se a mercadoria não tem nota fiscal, é por que é ilegal (!). Disseram que foi denúncia. Que eles guardavam, durante a noite, as coisas num bueiro. Agora me diz, pra que? Se temos o barraco lá em cima, pergunta cheio de indignação.

A perna ficou bamba, foi ele quem me contou. Uma moça, que assistia a cena, quando o rapa levantou, viu que ele estava muito nervoso, tremendo mesmo. A moça foi em casa e trouxe 7 livros velhos para ele não ficar sem nada, que os revendesse para não ficar no prejuízo total….

MOVIMENTO

Foi assim que começou. O Leme ganhou, informalmente, aquilo que tantos sentem falta no bairro. Temos uma livraria. As semanas passam. Os títulos, mais de 100, passeiam por diversos estilos. Os mais vendidos são as histórias, os romances e livros de bolso, ele me informa. Tem de três, cinco e dez reais. Enquanto cuida da banca, tira uma casquinha do produto. Leu vários. Seus preferidos são “O Sete do Vermelho”, “Os Filhos do Demônio” e “Herói Solitário”. Os nomes dos autores, ele não sabe, que é muita coisa pra guardar na cabeça e muito lugar pra conhecer, alega.

É aqui do morro mesmo. Trabalhava nas feiras de Copacabana, vendia biscoito e quase não estudou. Sabe fazer contas e, graças ao novo “negócio”, está adorando ler.  “Aprendi tudo na rua. A vida me ensinou. Ensinou muito. Nos livros vou mais longe. Chego a lugares que nem sabia existir”. Ele tem orgulho do seu ganha pão. Diz que já vem cliente lá do meio de Copacabana. Explica que Copa tem pouquíssimas livrarias. A procura é grande.  Como ele sabe disso tudo? Diz que é por que foi pesquisando o mercado. Perguntando para um, para outro…

Esta saga será escrita. Por mim. Aviso aos meninos que se esmeraram em contar os detalhes da pequena empresa, que, se depender deles, ainda virará um grande negócio…

Me despeço prometendo mostrar quando a matéria estivesse escrita. Já havia dito que achava muito bacana a forma com que eles estavam se “organizando”. E contá-la é uma forma de mostrar que é possível, sim, dar a volta na sorte.

REALIDADE

Cheguei da viagem a Manaus, o material prontinho. E eu louca para mostrá-lo aos meus protagonistas. Atrás de palpites, novos detalhes, opiniões.  

Em vão. Tenho passado diariamente no local da banca. Ninguém. O negócio parou. Ficamos sem nossa livraria. É tempo ruim? Está tudo muito calmo. A marquise limpa. Nenhum dos meninos por perto. Pode ter sido o rapa. Passou novamente. Levando o futuro, a esperança de um dia, cultivada por tantos…

Só que, aqui no Leme, a gente sabe que recomeça de novo. Tudo. Sempre…

* Valeria del Cueto é jornalista e cineasta liberado para reprodução Este artigo faz parte da Série “Ponta do Leme”

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