Sabiá Vermelha, plena de graça e de luz

Arvoredo da esquina07/10/2005

Agora quem vai é Tereza. Albues. Eisenstat. Ela é Pedra Canga, da Chapada da Palma Roxa. Sua Travessia dos Sempre Vivos é o Berro do Cordeiro em Nova York. Foi lá que a conheci. Tereza me apresentou ao Brooklin, me enfurnou em Manhattan, me abrigou na casa de Marcelo Fiorini, antropólogo brasileiro que, hoje, creio mora em Paris.

Mas de tudo que Teresa me mostrou nesta viagem em que fui bater com os costados em sua casa indicada por Glorinha Albues, sua irmã, o mais surpreendente foi sua obra. Gastei em dólares para, nos EUA, ter o prazer de retornar a Mato Grosso através da literatura de Tereza. Uma tarde, no jardim de sua casa, depois de uma garrafa de vinho, acompanhada de queijos e salmão, deitada num banco, lagarteando no sol pálido que tentávamos capturar, ameacei o que ela pensou ser um protesto sobre esta situação. Tereza me olhou e perguntou por que não deixava para ler os livros quando retornasse ao Brasil. Tive que rir…

O primeiro livro que abri, pensando em ler apenas a dedicatória, era “Pedra Canga”. Comecei e não parei… Li em viagens de metrô, em lanchonetes de museus como o Metropolitan, li na fila para comprar ingressos para o Stoomp. Só não li na Exposição que fui com Robert, seu marido, ao Guggenhein.

Esta exposição comemorava os 100 anos de uma das minhas maiores paixões: motocicletas. Fomos no último dia. Ali, a força das histórias de Teresa foi substituída pelos cavalos dos motores da coleção de todos os tipos de máquinas expostas dentro e fora do museu. Ali havia centenas de motocicletas de aficionados que visitavam a exposição e roncavam seus motores desfilando pela beira do Central Park. Quando fecho os olhos, consigo ouvir o ruído dos motores, como uma sinfonia. Assim é a obra de Teresa. Uma parte, lemos. Outra, apenas sentimos e guardamos… E esta sensação, este sentimento profundo, perdura na nossa imaginação.

Quem me deu a notícia que Tereza tinha partido, foi André Mux. Tanto carinho teve nosso amigo ao fazê-lo, que também me indicou o lenitivo, o remédio para aplacar a dor e consolar a alma de todos aqueles que estão, como eu, com um grande vazio pela partida de Tereza. André me mandou ler a última página do “Berro do Cordeiro em Nova York”, publicado em 1995. E é a própria Tereza quem nos dá a dimensão de quem é, e para onde vai.

“A vibração da última corda da harpa, até agora emudecida, sobrepõe-se aos ruídos da manhã novaiorquina, enchendo o ar de melodias antanhas, algumas já esquecidas, nos subterrâneos de mim, quase não as reconheço. A corda é tensa, dolorida, fere o dedo que a dedilha, fere a si mesma na aspereza de sua textura. Ainda assim o som irrompe, pujante, profundo, suavizando o agreste da alma que o compõe. Meu cântico de liberdade ainda não está completo, mas a cerimônia da visitação do sol me confirma que neste instante meu destino entrou em comunhão com as energias da terra onde nasci. Ao solo norte se junta o solo sul em louvores à mãe Terra, uníssonos. A nova música me cobre de glória íntima solto-a no espaço, espalha-se ruidosa no céu como bandos de aves do cerrado em migração. Que de repente, surgem no horizonte, alvissareiras. Bato asas velozes, gorjeio, vôo ao encontro das antigas companheiras, palpitante. Nas águas espelhadas do rio Hudson, a imagem arisca. Da sabiá vermelha cruzando os céus de Manhattan, plena de graça e luz.”

Assim é Tereza Albues Eisenstat, uma mato-grossense iluminada, em qualquer lugar em que se encontre…

*Valéria del Cueto é jornalista e cineasta.

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