Lamento Pantaneiro

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As cordas de aço afinadas do velho violão ecoam pelo ar nesta manhã de quinta feira. Cada acorde é uma lágrima derramada da saudade que se anuncia. Só quem conhece o Pantanal, sabedor do seu isolamento, a distância entre tudo, desconfia quão longe pode chegar o som de uma viola chorona. E hoje, tenham certeza, ele vai alcançar decibéis imensuráveis, cruzando melodias e lamentos por águas, terras e céus pantaneiros.

Faz um ano que vi Helena Meireles, a violeira mato-grossense no Festival Internacional de Cinema do Rio de Janeiro. E lá, tive o privilégio de gravar uma entrevista exclusiva com ela, que veio a cidade para o lançamento do documentário “Helena Meireles, a Dama da Viola”, de Francisco de Paula. Fui encantada por seu jeito, suas histórias pantaneiras, e sua postura perante a vida.

Hoje, amanheci com a notícia que D. Helena se foi.

Sempre que morre um amigo, fico imaginando como ele será recepcionado do lado de lá. O tipo de, digamos, evento inaugural marcará sua passagem desta para uma, literalmente, melhor. Com Dona Helena a coisa se complica… Como transformar o céu no ambiente perfeito da violeira do Porto XV? O céu virar bordel? Como permitir que peões, prostitutas, cafetões e músicos festejem com a devida pompa a chegada de Dona Helena por lá, arrastando as botas no salão de terra batida numa polca paraguaia, num chamamé ou numa guarânia?

Deus, em sua infinita sabedoria(?) e bom gosto(!), não perderá a chance de ter a sua disposição aquilo que nos foi tomado: o som mágico das cordas do pequeno violão de Helena Meireles. Aquele que, um ano atrás, ela dizia que a doença, uma pneumonia braba que a deixou mais magrinha do que sempre foi, a tinha obrigado a deixar de tocar.

Aos que ficam, o orgulho de saber pantaneira uma das 100 maiores palhetas do mundo, eleita pela Revista Guitar Player, a bíblia mundial do instrumento. Lá está ela, a palheta de Dona Helena, feita de lasca, esculpida com a faca que ela trazia cruzada na parte de trás do cós da calça, embaixo do pala paraguaio com que aparece em várias cenas do filme. Sua palheta figura lado a lado com a de Al di Meola, B.B. King, Jimmy Hendrix e outros 96 gênios do instrumento.

Um conselho para quem, como eu, num dia como o de hoje, amanhece com o coração cheio de tristeza. Que sigamos os ditames de Dona Helena. Que a viola coma solta noite adentro.Que todos os que tiveram o prazer de conhecer de seu incrível universo pantaneiro, comemorem sua passagem com aquilo que ela mais gostava: muita festa, muita música, um bom trago e alegria. De preferência ao som devidamente registrado em quatro CDs nos seus últimos anos de vida, das cordas mágicas da dama viola. E que soem os berrantes pantaneiros, anunciando que, aí em cima, está chegando D. Helena. A mais autêntica violeira do Pantanal.

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