O tempero do saber e seu sabor cuiabano

19/09/2005

Cuiabá é, e sempre foi, um lugar peculiar. E se você quiser amar a cidade tem que, primeiro, se adaptar as suas singularidades.

Depois de um tempo fora me esqueci completamente de uma destas suas, digamos, características. É impossível andar por suas ruas em determinados horários.

É o calor, minha gente, capaz de inibir qualquer medida anti-sedentária e saudável. Que transforma uma pernada de algumas poucas quadras como, por exemplo, do Edifício Milão até a Murakitan, na 24 de Outubro, num verdadeiro martírio.

Só que, no meio do caminho, em vez de uma pedra, há uma praça, a Clóvis Cardoso, e numa de suas quinas, uma construção que eu lembrava ser um quiosque de flores. Passei a primeira vez em frente, tudo fumê, fechado, estranho, sem parecer abandonado… Segui para o encontro com a Tetê e o Cacá de Souza, num maravilhoso e reconfortante jardim, nos fundos da loja com direito a chá indiano e boa conversa.

Me esqueci da “travessia”…

ATRAÇÃO INEVITÁVEL

Dias depois, erro recorrente. O mesmo percurso, a mesma gastura. No mesmo lugar. Em frente ao quiosque. Reparei melhor. Havia uma placa na porta de vidro com alguns dizeres “Saber do Sabor”… Pensei com meus botões que havia algo habitando o espaço. Provavelmente uma lanchonete…

E eis que a porta se abre. Saem de dentro três estudantes e um bafo fresco de ar condicionado. Sigo a temperatura (isso é possível em Cuiabá) e me vejo cercada por livros. Bastante livros. Aproximadamente 6.000 volumes.

Na parede, um cartaz me arrepia: “Não estamos recebendo de livros didáticos”. Um contra senso, mas está lá.

A ORIGEM E A CONSCIÊNCIA

A biblioteca foi coisa do Maldonado, mantida na atual administração, por que Wilson Santos, também professor, aprendeu direitinho a lição que ensina que não se mexe em time que está ganhando e agradando a comunidade. E o projeto é um grande sucesso.

Confesso que me sinto em casa. Orgulhosa desta minha cidade. E mais feliz ainda fico, quando conversando com Claudemir Jorge de Sales, um dos anjos da guarda da livrarada, fico sabendo que só ali, na Clóvis Cardoso, 2.000 pessoas estão no cadastro ainda não informatizado da biblioteca popular.

A MULTIPLICAÇÃO DO ALIMENTO

Minha sensação de orgulho e carinho por Cuiabá aumenta ainda mais quando descubro que o “Saber do Sabor” se espalhou por outros pontos da cidade. E que pontos! Dom Aquino, Pedregal, Santa Isabel e Pedra 90. Tirando este ultimo, que é bairro novo, os outros são comunidades tradicionais cuiabanas.

Foi lá também que descobri a existência da “Sociedade dos Amigos do Sabor do Saber”, dirigida pelo jornalista e poeta Weller Marcos. Trocamos correspondência e ele me contou os esforços feitos pelo grupo e pela responsável pelo projeto, Creusa Guimarães, para manter e desenvolver as bibliotecas.

E dizer que foi o ar condicionado que me levou a conhecer o projeto e reencontrar velhos conhecidos e amigos, unidos por um ideal que é, também, parte dos meus princípios.

A ARTE DE TEMPERAR 

É nesta posição que faço um apelo ao Prefeito Wilson Santos, um cuiabano como eu, de coração. O “Sabor do Saber” não é uma iniciativa do seu governo – o projeto começou em 2001, mas é uma iniciativa de sucesso e que agrega valores e conhecimento, disponibilizando cultura e educação as comunidades envolvidas. Serve também para aumentar a auto estima da população cuiabana. E, para tanto, acredite, prefeito, ar condicionado e outros pequenos cuidados são fundamentais e devem funcionar também na versão itinerante do Sabor.

Cuidados como o que me faz tentar entender por que a “Sabor do Saber” não aceita doações de livros didáticos. Se o projeto é ligado a prefeitura e a secretaria de Educação, deduz-se, que não faltam livros didáticos para estudantes da região. Se for verdade, que se recolham os desprezados, e sejam eles distribuídos entre a população carente.

Assim como a boa comida, livros, didáticos ou não, alimentam a alma.

Se cada criança, de um livro qualquer que lhes passe pela mão, aprender uma ou duas palavras, ele, o livro, e nós, que tentamos distribuí-los, estaremos despertando para leitura futuros cidadãos.

E isto certamente é um tempero essencial no sabor do saber cuiabano…..

*Valéria del Cueto é jornalista e cineasta

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