Previsões do tempo

Ponta 120727_004 criança casteloDou a mão à palmatória e aos que clamam pela mais absoluta verdade: é segunda feira, metade do dia e acabo de chegar na praia. Aqui mesmo, na Ponta do Leme.

O que posso fazer? O sol convidava, o céu azul me chamou pelo vão da área de serviço, onde tomo café conversando com as plantas do jardim. Atendendo a tantos apelos fui render L., que levantava acampamento justo quando eu me materializava na areia. Se fosse troca de turno ou corrida de bastão, a passagem seria perfeita.

Estendo a canga, respiro fundo e me preparo para receber os sinais. Para isso, abro todos os canais. Vejo. Ouço. Sinto. Respiro. O dia e o que ele me traz. Sei que é um dom, mas muito traiçoeiro. Para captar e traduzir é preciso se deixar conduzir. Liberar as energias e, depois, ir resgatando os sinais, aceitando as indicações e compondo o quadro, traço a traço, pincelada por pincelada.

DIÁLOGO 

O sol brilha, o céu está azul, o vento conversa agitado. Disputa com o barulho do mar. Ambos inquietos. Os sons se transformam em imagens e cada gemido simboliza um carneirinho de espuma sobre as marolas que enfeitam a superfície agitada da água. Bem verdinha na beira mar, porém avisando no tom chumbado do horizonte que as coisas não ficarão tão boas como parecem.
O vento insiste e persiste. Inconstante. As letras, palavras, frases e notícias do jornal dançam ao desritmo de uma melodia doida, querendo misturar Severino com Ang Lee, Fluminense com Katrina, pizza com angu. Melhor guardar as letras, antes que elas comecem a acreditar em si mesmas. Num dia desses, numa praia assim, tudo é possível, até mudar o mundo…

O problema é que não me sinto capacitada para fazê-lo. Não sei com resolvê-lo. Agora não. Como? Se não consigo sequer entender este diálogo entre o vento e o mar….

MIRAGEM

Surge na minha frente, caminhando pela linha d’água, alguém do meu passado. Querido. Os mesmos olhos, cabelos, jeito de caminhar. É ele, penso emocionada. Rapidamente caio na realidade. É ele como sempre foi. Quando tinha a minha idade. Não pode ser ele por que o tempo passou. Talvez o filho, que nem sei se tem…

São duas as possibilidades: ou me entristeço pelo que já foi, ou agradeço pela lembrança antiga que veio me acariciar. Penso nos olhos, no sorriso e nos cachos castanhos, mais para dourados, no ar de esperança e, principalmente, na confiança do andar que os anos não me fizeram esquecer.Ele segue seu caminho, em direção a pedra. Sigo com o olhar seus passos e, tranqüila, não me despeço da imagem. O que vai naquela direção costuma voltar.

Distraída, observo a corveta da marinha que surge vinda da baía da Guanabara. Segue em direção as ilhas Cagarras, ao alto mar. E nada da minha visão retornar. Adeus olhos, cachos, corpo e andar. Adeus miragem do bem que esteve a me visitar.

REALIDADE 

Fico, feliz, com a saudade.

O mar segue seu lamento… O vento grita, cheio de razão… O sol ressurge, em meio a bruma que baixou na praia deserta. Mais um prenúncio que o humor do dia está virando. A barra do horizonte confirma a previsão do tempo: nublado, com possibilidade de chuvas ao final do período… 

*Valéria del Cueto é jornalista e cineasta

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2 comentários sobre “Previsões do tempo

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