A Luz de Carla

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Edicao Nº56 – Agosto de 2005

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CINEMA A Luz de Carla

Carla Camurati coleciona exitos: comemora os 10 anos da retomada do cinema nacional com Carlota Joaquina; e tema de biografia e esta prestes a lançar mais um longa, Quem tem medo de Irma Vap?

Por Valeria del Cueto 

Chamar-se Luz Natural o livro sobre uma pessoa como Carla Camurati pode parecer estranho para alguem que analise seu curriculo. Afinal, e entre holofotes, refletores, sun guns e flashes que ela circula com maior desenvoltura. As luzes mais comuns a atriz, roteirista e diretora sao as dos estudios, locacoes cinematograficas e bocas de cenas. E sob este tipo de iluminacao que Carla brilha para o publico externo em suas atuacoes na televisao, no teatro e no cinema, em suas criacoes para as telas e palcos.

Mas Luz Natural e um titulo que faz justica e sintetiza a historia de Carla Camurati, contada pelo critico Carlos Alberto Mattos, autor, entre outros, de Walter Lima Jr. – Viver Cinema( Casa da Palavra, 2002) e Eduardo Coutinho – O Homem que Caiu na Real (Festival de Santa Maria da Feira/ Portugal, 2003) . O livro, de 311 paginas, e lancamento da Colecao  Aplauso/ Perfil, concebida e editada pela Imprensa Oficial do Estado de Sao Paulo. Foram mais de 20 horas de conversas gravadas em oito encontros, entre novembro de 2003 e marco de 2004.

Deste material nasceu um livro-depoimento, ilustrado com fotos biograficas, onde Carla conta suas historias, origens, infância e juventude, descobertas, lugares, pessoas comuns, personalidades, estrelato, oficio de atriz, opcao pelo
fazer cinema, o prazer em produzir e distribuir.

Se Carla pensou que, ao se deixar desnudar biograficamente (fotograficamente isso ja aconteceu duas vezes), estaria fornecendo elementos que acabassem com os mitos que envolvem sua trajetoria, enganou-se. Ao expor suas verdades e defender suas escolhas, desvenda as pontes construidas entre as diversas atividades em que se envolveu neste percurso, mas acaba tornando-se refem de uma nova imagem: a que se deixa iluminar por esta verdadeira Luz Natural.

E impossivel nao admirar a forma clara e direta como ela se relaciona com seus medos e fantasmas (mesmo que, confessadamente, a custa de muita analise e terapia): encara seus desafios e derruba o que, para outras pessoas, poderiam ser barreiras intransponiveis. A cara bonita ajuda? Os olhos de anjo favorecem? Engano. Da propria beleza, apenas o desafio de fazer o belo. E, isto, se tiver um objetivo mais profundo, de preferencia ligado as questoes e indagacoes artisticas e sociais do seu tempo.

Sua infância e adolescencia na Zona Sul, remete a lugares e situacoes comuns a juventude carioca dos anos 70 e ja desperta um objeto de desejo: quem nao gostaria de, quando crianca, apagar de tanto comer doces feitos pelo avô Enrico, sentada numa bancada de marmore na cozinha do Copacabana Palace, fazendo o papel, junto com sua irma Carina, de provadora oficial dos quitutes servidos no tradicional cha de domingo do famoso hotel, icone da cidade do Rio de Janeiro? E foi como outros de sua geracao que largou a Biologia pelo curso de teatro de Gilda Gilhon e Buza Ferraz, anunciado num cartazete colado na parede da lanchonete, em frente a qual jogou – literalmente – no lixo todos os cadernos e anotacoes das aulas da faculdade.

Carla chegou ao estrelato. Comecou no teatro, fez programas especiais para televisao, brilhou em novelas. Mas continuou procurando. Foi parar em Sao Paulo onde descobriu o cinema e, nele, se sentiu em casa. La, fez seus dois curtas-metragens: A Mulher Fatal Encontra o Homem Ideal, 1987, e Bastidores, 1988.

Em plena desmontagem do cinema brasileiro, comecou a produzir Carlota Joaquina, a Princesa do Brasil,1995. Passada uma decada, o filme e a diretora sao aclamados como responsaveis pela retomada do cinema nacional. A historia da vinda da corte de Dom Joao VI para o Brasil, estrelada por Marco Nanini e Marieta Severo, atraiu as salas de exibicao brasileiras um publico superior a um milhao e trezentos mil espectadores. Ela divide os louros: Nao me vergo ao peso do titulo de heroina da retomada. Carlota fez um movimento de virada, resultado de uma quimica coletiva, em que eu apenas segurava a bandeira. Barbara mesmo foi a distribuicao do filme acrescenta com um brilho no olhar.

O tom dado a Carlota a levaria a dirigir operas. E La Serva Padrona (1998) nas telas. Teoricamente, o filme teria um publico restrito. Apostando na formacao de um novo publico, Carla o faz chegar as escolas. O Projeto Escola apresentava
as criancas um mini-cenario de opera e desvendava alguns dos segredos do fazer o espetaculo. O lucro da bilheteria do filme foi redirecionado para a compra de mais ingressos, distribuidos gratuitamente nas escolas publicas.

No livro, estao descritas algumas caracteristicas do seu jeito de fazer cinema:a preferencia em filmar quebrado (no caso de Carlota Joaquina, foram seis semanas de filmagens, divididas em oito meses); uma pratica complicada hoje em dia, ja que, com tantas producoes acontecendo no pais, dificilmente seria possivel manter uma equipe disponivel por tao longo periodo. Outra peculiaridade e o tratamento dispensado a seus colaboradores: alimentados com vegetais vindos diretamente do seu sitio em Teresopolis, no Estado do Rio, e tratados a base de florais medicinais. Tantos cuidados atestam a conhecida docura de Carla, contrabalancada com uma vontade ferrea e muita persistencia.

Agora e a vez de Quem tem medo de Irma Vap?, projeto que esta finalizando. O espetaculo ja havia sido tema de seu segundo curta, Bastidores. Novamente, Marco Nanini e peca importante do quebra cabecas filmografico de Carla. Foi Dom Joao VI em Carlota Joaquina, Princesa do Brasil, o fotografo Alberto, em Copacabana (2001), e volta em Irma Vap ao lado de Ney Latorraca, seu parceiro no sucesso estrondoso da peca de Charles Dullam, O Misterio de Irma Vap, que gerou o filme. O mesmo Nanini (e Fernanda Badaue) protagoniza um dos planos-seqüencia preferidos da diretora, no filme Copacabana: a cena do grande baile, onde danca iluminado pelos lustres do salao. Nao por acaso, o salao do Hotel Copacabana Palace da sua infância.

(Leia mais na edicao 56 da Revista Continente Multicultural. Ja nas bancas.)

Valeria del Cueto é jornalista e cineasta.

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