BELÉM TEM…

Belém 150915 089 Bosque Rodrigues Alves tartarugasde Valéria del Cueto

 Agosto de 2005

E me pegou pelo pé. Estou, agora, no meu ponto, no final do Leme, no Rio de Janeiro. Ouvindo o barulho do mar com o sol esquentando minhas costas e pensando na vida.Nos últimos e, bem, atribulados dias…

 Aí, caiu a ficha de Belém. Conheci a cidade graças a participação do curta metragem “História Sem Fim… do Rio Paraguai – o Relatório” na mostra competitiva do Festival de Belém de Cinema BrasileiroNossos anfitriões, a atriz Dirá Paes e Emanuel Freitas, organizadores do evento, estenderam um tapete “amazônico” para seus convidados. E, sou obrigada a confessar, fui totalmente seduzida pelo ambiente. Por Belém em si e pelas inúmeras possibilidades de explorar um mundo que, apesar das minhas muitas andanças, conseguiu me surpreender.

 É muita riqueza. Cultural. Quem pensa que o Pará se resume às inúmeras etnias indígenas (e são muitas) que se espalham pelo território, engana-se redondamente. Não é só isso. Se considerarmos cronologicamente, posso até concordar, é apenas o começo. Por que depois, chegaram os portugueses, jesuítas, franceses, espanhóis… 

RALANDO NO PARAÍSO

Vi reflexos de tudo isso em apenas uma semana. E trabalhei meio atordoada garimpando material musical para o “Caipirinha Appreciation Society Show”, programa de rádio do MdC Suingue transmitido de Londres, cujo slogan devia ser: “Treine inglês ouvindo música brasileira”. Encontrei o produtor Toni Soares, da Rádio Cultura, os pesquisadores do IAP – Instituto de Artes do Pará e Washington Csak, da banda Euterpia.

 Para falar a verdade fui fisgada já na noite de abertura do festival. Na cerimônia houve uma apresentação da Marujada de Bragança. Eram apenas quatro casais evoluindo no palco do Cinema Estação das Docas. Os dançarinos tocavam castanholas. Todos vestidos de branco com detalhes vermelhos. Uma rabeca e um banjo desenhavam as melodias, acompanhados de duas percussões.

No dia seguinte saí catando contato deles. Fui parar no Instituto de Artes do Para, o IAP. Ali, novas histórias se descortinaram: a da Irmandade de São Benedito, fundada em Bragança em 1758 e a da arte de fabricar a rabeca que eu vira o grupo tocar. Mas não parou aí. Corre para lá em busca de novidades, corre para cá tentando acompanhar a programação do festival, mais uma corridinha fazendo uma social (que ninguém é de ferro), fiquei sem tempo para os passeios turísticos implementados para alegria da trupe convidada. 

 IDAS E NÃO VINDAS

Fui no Cumbu, uma beira de rio amazônico onde Emanuel Freitas nos recebeu com muito açaí, cacau (nunca misturem, é a morte) e outras delícias da terra. Além de um mergulho maravilhoso rio. Me senti a própria Iara. Não pensei em jacarés quando me atirei o alto do deck na água tépida.

 Perdi as visitas a Mosqueiros, uma praia fluvial, o Mangal e (pasmem!) o Ver o Peso.Graças a Deus nada que não possa ser recuperado. Babei diante das Docas. Cinemas, bares, restaurantes, lojas. O sonho de nove entre dez prefeitos do Rio de Janeiro se materializou diante dos meus olhos. Lá, na margem do Amazonas, em Belém do Pará… Num último esforço e já vendo o tamanho da besteira de não explorar o lado turístico a cidade, me juntei com Neusa Barbosa, jornalista do Cineweb que fazia a cobertura do evento e, juntas, fizemos um périplo pela Feliz Luzitânia.   

CIDADE VELHA

 O que é isso, vocês me perguntam? Foi o que indaguei ao primeiro guia, no Forte do Presépio. Feliz Luzitânia era o nome da vila fundada pelos portugueses nos idos de 1600 e qualquer coisa. O forte em questão havia sido levantado entre 1616 e 1619. Das ameias do forte vimos uma corveta da marinha atracada. Seguindo pela beira do rio fomos bater na embarcação. Seu nome é Solimões. Foi lançada ao mar na década de 50 do século passado e, depois de ser desativada, virou um museu flutuante adotada que foi pelo governo estadual.

Queríamos conhecer a igreja de Santo Alexandre e o Museu de Arte Sacra, recomendados por Ismaelino Pinto, nosso amigo e crítico de cinema que nos orientou sobre os pontos imperdíveis da cidade (a lista foi grande!), durante um passeio noturno.Só que… tanto a Igreja quanto o Museu só abriam a partir de uma da tarde. 

 TOA NA PRAÇA

Fazer hora por ali foi fácil.Primeiro, visitamos a Catedral que está sendo recuperada. Depois, fomos à Casa das Onze Janelas, onde funciona o Museu de Arte Contemporânea. Uma exposição permanente, com obras doadas pela Funarte traça um panorama brasileiro. Em destaque, para orgulho mato-grossense uma tela de Adir Sodré, facilmente reconhecida por seus ícones e suas cores exuberantes. Ainda na Casa outra exposição, a de fotógrafos paraenses, retrata a diversidade dos temas da região.

Finalmente, o Museu de Arte Sacra e a Igreja Jesuíta de Santo Alexandre. O que mais me impressionou foram as peças barrocas esculpidas por índios que freqüentavam as oficinas jesuítas. As melhores madeiras da região revelam, nas curvas de seus entalhes, uma versão diferente dos temas trabalhados na mesma época em outras regiões brasileiras.

Ali, ouvindo as explicações de mais uma dos guias que nos acompanhavam nas visitas, detectei um diferencial fundamental em relação às chamadas políticas públicas da área cultural aplicadas em outros lugares por onde costumo passar. Certas realizações dependiam exclusivamente da continuidade dos trabalhos referentes ao patrimônio histórico, sua recuperação e exploração. 

 CONTINUIDADE

Havia uma unidade, um padrão visível na forma de exposição, abordagem e restauração dos lugares que visitamos. As metas eram palpáveis: apuro arquitetônico, qualidade técnica e treinamento de pessoal tanto na manutenção como na capacitação dos atendentes.

Não tivemos na visita uma única pergunta que não fosse respondida a contento. As informações eram precisas e detalhadas. E olha
que não éramos exatamente leigas.

A explicação para este padrão é muito interessante. Há três governos, nos dois de Almir Gabriel e no atual de Simão Jatene, o secretário de Cultura é o mesmo, o arquiteto Paulo Chaves Fernandes. Não tive oportunidade de conhecê-lo mas o que vi me deixou impressionada. Visitei museus que não fazem feio diante de seus pares europeus e americanos; que utilizam recursos arquitetônicos e de iluminação comparáveis aos mais sofisticados existentes, como a fibra ótica que valoriza e preserva as imagens do Museu de Arte Sacra. 

PEDRA 90

Deixamos por último o presídio São José. Construído para ser um convento jesuíta, transformado em cadeia, vive agora seus melhores
dias, abrigando o Museu de Gemas do Pará. E se as gemas não interessam, pulem o museu e sigam em direção ao jardim central do antigo presídio. É um lugar muito especial. A beleza das pedras gigantescas que enfeitam a fonte central atrai a atenção e prepara o espírito para a Casa do Artesão.

Terminamos aí o nosso périplo, com direito a sorvete de pavê de cupuaçu e compras irresistíveis até para alguém que, como eu, havia jurado não gastar um único centavo. Atire a primeira pedra quem conseguir resistir as peças artesanais. É impossível. Ninguém é capaz de sair de Belém, sem levar na mala e na imaginação, lembranças de sua passagem por esta exuberante capital brasileira.

Valeria del Cueto é jornalista e cineasta

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