VÁ PARA ATHENAS

OTICA DE ILUSAO - caminho prataTexto e foto de Valéria del Cueto

abril de 2005

A recomendação veio num sonho. Daqueles nítidos, detalhados, cheio de movimentos… Estava num lugar que não conhecia, uma cidade grande e recortada por ciclovias. Uma cidade brasileira. As placas e a sinalização eram todas em português. Andava numa bicicleta. Pedalando rapidamente pela pista que cortava parques, subia viadutos e fazia curvas perigosas, ao fim de ladeiras e rampas.

O mais interessante é que eu não percorria estes lugares com uma sensação de dúvida ou incerteza. Sabia onde estava indo e como queria chegar. Não hesitava na encruzilhadas, diminuía a velocidade nas curvas, sequer sentia o coração bater mais forte devido ao esforço. A corrida desabalada não me cansava. Meu ponto de vista não era o de quem estava na bicicleta. Era de cima, como uma câmera aérea. O steadycam do Lula Araújo. Eu me via na bicicleta, percorrendo a cidade e temia a minha própria sorte, pensando a cada curva perigosa ou sinal de trânsito:

– Agora  eu vou errar. Se não diminuir vou passar reto – no caso de uma curva após uma pirambeira. –  O sinal está aberto, isso é uma avenida. Freio ou vou parar embaixo dos carros que cruzam em alta velocidade? – Me apavorava. Nada acontecia. O sinal fechava, os carros paravam fora da pista de pedestres e lá ia eu, firme e decidida para o destino final, que não sabia qual era.

Num determinado momento reconheci na cidade desconhecida a casa de um amigo que não vejo há muito tempo. Ele era gordo fez aquela operação de redução do estômago e ficou magrinho. Isto, na vida real.

Quando atenderam a campainha e a porta se abriu, lá estava ele, grandão como antes. Nos abraçamos, matando as saudades. Corte (sonho pode ser assim, igual a filme de cinema).

Estamos numa sala decorada com muitas lembranças. Num canto, uma mesa com uma grande vasilha ao centro. Dentro dela pedras, seixos, conchas e búzios. Ele remexia o interior da peça e analisava a posição dos objetos.

Sentada a seu lado, aproveitava o silêncio para estudar a sala e seus detalhes. Uma outra pessoa que eu sabia ser amiga dele, de pé,  funcionava como uma espécie de assistente atenta as nossas reações. Ele começou a falar e disse que via uma corrente de recordações que me prendia, impedia de seguir o meu caminho. Mas que ela estava sendo rompida. E começou a balbuciar coisas que eu não conseguia entender.

Pensei no filme, o curta metragem História Sem Fim… do Rio Paraguai – o Relatório que tinha vindo lançar em Recife, no CINE PE ( foi lá que tive o sonho) , nos 7 anos que levei para realiza-lo, refazendo a cada etapa do processo a viagem de  21 dias pelo Pantanal. Na checagem do material, nas decupagens da película, do vídeo, do áudio, do H-8 do vídeo assist, na análise das fotos, na seleção do material da exposição, depois os textos das legendas tirados da transcrição dos diálogos registrados, a edição das imagens, a montagem do som e aí por diante, até a apresentação no palco do CINE PE, em Recife, diante de 2.500 pessoas.

Ali, com a bandeira de Mato Grosso e a faixa paraguaia cobrindo a frente da bancada, falando sobre o Pantanal. A busca da identidade  cultural em Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Agradecendo aos que ajudaram a realizar o curta metragem História Sem Fim… do rio Paraguai – o Relatório, representados naquele imenso cinema por alguns símbolos desta parte tão especial do Brasil e mostrando publicamente meu orgulho por esta terra, supus estar rompendo a corrente mencionada.

Era como se fosse o sonho dentro do sonho.

Perdida nestes pensamentos não ouvia o que meu amigo murmurava. Voltei à realidade quando sua assistente avisou que não saísse pois ela tinha algo para me falar. Perdi o fio da meada, do mantra que meu amigo me repetia.

Subitamente, ele despertou, desviou seu olhar perdido no centro da mesa e me olhando nos olhos, os olhos meus de quem pensava na liberdade almejada,  me disse em alto e bom som:

– Vá para Athenas.

Foi minha vez de acordar. No susto, alerta como nunca costuma acontecer. Pulei da cama. Do sonho para a vida, sem preguiça. Mas no fundo do meu despertar ficou a imagem. Da bicicleta, o lugar desconhecido, um rosto amigo, conselhos não ouvidos e a ordem recebida:

 – Vá para Athenas…

Valeria del Cueto é jornalista e cineasta

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