COURO LIMPO E “QUEBRA TORTO”

De Valéria del Cueto

Maio de 2005

Tinha ido ao segundo e acabei conhecendo o primeiro.

O “quebra torto”  era literário. Tendas fincadas no amplo pátio nos fundos da Casa do Artesão de Corumbá, Mato Grosso do Sul, durante o 2º. Festival América do Sul, em Corumbá. Cadeiras, tablado e uma mesona na lateral. Na segunda vez que fui lá, tinha uma única rede. Quase irresistível depois do sentido, digamos assim,  gastronômico do programa: um café da manhã pantaneiro.

Começava com uma atividade literária: lançamento de livros. Dos mais variados. Prosa, verso e fotografia eu presenciei. De outros, só ouvi falar. Num desses, um convidado chileno, apresentado por Karen Acioly, que autografava “Iluminando a História”, me contou que havia comprado peças feitas com couro de peixe. Ali mesmo.

Lá no fundo do pátio, bem no fundo, ficava a oficina. Dez mulheres tocavam o projeto, chamado Amor Peixe. Todas mulheres de pescadores. Em busca de um extra para sustentar a família na Piracema, a desova dos peixes quando é proibido pescar, de outubro a fevereiro. (Bom, é melhor parar, se você quer uma reportagem sobre o projeto. Neste caso, não foi assim que a banda tocou. Não anotei nomes. Apenas me deliciei com a conversa.)

O lugar tinha um enorme painel de boas vindas, um quadro com letras coloridas. Algumas mesas espalhadas. A esquerda, o antigo balcão servia de vitrine. Segundo disseram, havia poucas peças em estoque, a maioria já tinha sido vendida. E olha que estávamos no segundo dia do Festival América do Sul.

Perguntei se tinham as peças de couro inteiro, sem ser revestindo pregadores de cabelo e agendas. Nas carteiras, bolsinhas, nas mantas lindas e fora do meu poder aquisitivo.  Expliquei que pensava em fazer braçadeiras e fios, para amarrar no tornozelo. Mesmo sem entenderem plenamente meu delírio criativo, mostraram as peças, com mais ou menos um palmo, um palmo e meio.

A conversa engrenou. Disse que eu tinha um bracelete, mas que era de couro liso. De surubim. Me contaram que só trabalham de forma ecológica, não usam química, todo o processo é natural: o curtimento, o engraxe e o tingimento.. Mas que a bióloga que as orienta ainda está pesquisando como curtir o couro liso sem poluir. Por isso, só curtem o couro de escama de pacú, piranha, pirarucu… As marcas das escamas fazem desenhos e criam caminhos nas peças cruas. Passam desapercebidas nas tingidas de preto. Ficam sensuais de vermelho.

Me serviram quibe de peixe frito na hora de palitinho. Quentinho. Falaram da pequena produção, limitada pela capacidade da máquina que tinham. Só dava para 5 quilos. Estavam aguardando uma que poderia fazer o mesmo trabalho com 50 quilos de cada vez. Vai ser um incremento, poderão chamar mais mulheres para o trabalho. Aumentar a produção. O trabalho era pesado, depois que as peças saíam da máquina, tinham que ser amaciadas. Na mão, como quem esfrega roupa. Com direito a calo e tudo.

Na vez seguinte que fui ao Quebra Torto Literário, levei o tal bracelete que havia falado para que elas vissem. Quando saí já tinham, inclusive, bolado um outro modelo. Me receberam animadamente.

Quando disse que estava tentando conhecer melhor Corumbá, uma se ofereceu para me levar ao Cristo, um atrativo turístico local. Contou que havia acompanhado uma turista alemã que quis explorar os arredores e que era uma confusão se comunicar com ela. A alemã falava um português truncado e vez por outra incompreensível. Também  levantaram rapidamente as informações sobre a procissão de Corpus Cristi que ia percorrer algumas ruas da cidade no feriado.

Posso dizer que me senti muito bem entre elas. A sensação fica melhor ainda quando penso no que acontecia quando saía destes encontros matinais: era a hora do café pantaneiro, que coroava o Quebra Torto Literário. Uma delícia. E vejam que não sou de comer. Mas foi impossível resistir aos pãezinhos, as chipas, ao ovo mexido com cebola e queijo, aos doces de leite e de goiaba…

Assim começava o dia em Corumbá: com literatura, boa prosa e comida pantneira. Saborosa e farta.

Valeria del Cueto é jornalista e cineasta

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