Legenda Nacional

Quando estava montando o curta metragem “História sem Fim… do Rio Paraguai – O Relatório” alguém sugeriu que, para melhor compreensão do documentário, as falas dos pantaneiros fossem legendadas em português.

Não gostei da ideia. Sempre defendi a tese de que o Brasil deve esforçar-se para entender seus diferentes sotaques e dialetos, enriquecendo e agregando novos vocábulos, gírias e expressões cotidianas.

Descartei definitivamente a possibilidade quando decidimos, João Paulo de Carvalho, o montador e eu, ainda na fase de edição em vídeo, fazer com que os diálogos entrassem em off sobre as imagens pantaneiras. Sujar a imensidão das paisagens e os detalhes dos planos selecionados para o documentário, ficou fora de questão.

É PRETO NO BRANCO E BRANCO NO PRETO

O curta chegou ao CINE PE, Festival do Audiovisual. Foi lá, circulando pelo saguão do festival em Recife que comecei a ver uma turma usando camisetas com os seguintes dizeres: “LEGENDA PARA QUEM NÃO OUVE, MAS SE EMOCIONA”. Era muita gente, a maioria jovem, que circulava com o simpático uniforme fashion . Eram camisetas pretas escritas em branco ou branca, com letras pretas.

Num dos estandes dos patrocinadores do festival, curiosa, perguntei o objetivo da campanha a um dos orgulhosos (como ele me explicou) organizadores do movimento. Seu nome era Rodrigo e ele se prontificou a me apresentar a Marcelo Pedrosa, seu primo e deficiente auditivo que, na edição do CINE PE de 2004, lançou o desafio de chamar a atenção para a imensa e quase intransponível dificuldade desta minoria em ter acesso a um segmento importante da cultura nacional: o cinema brasileiro.

QUEM NÃO SE COMUNICA…

Os filmes estrangeiros, por já terem legendas, são facilmente assimilados pelos deficientes auditivos, mas quando o assunto é o produto nacional, a coisa muda de figura. E a verdade é que nem notamos esta realidade. Foi por este motivo que, segundo Marcelo, no encerramento do CINE PE, no dia 5 de maio de 2004, aconteceu o lançamento da campanha. 

Coincidência ou não, é no dia 5 de maio que se comemora o “Dia das Comunicações”, cujo patrono é o Marechal Cândido Mariano Rondon, militar e desbravador que estabeleceu contato com nações de diferentes e incompreendidos idiomas indígenas, no início do século passado, quando estendia os fios do telégrafo e demarcava o território brasileiro no Centro Oeste e na Amazônia.

SITE, ORKUT E COISA E TAL

Voltando à campanha, ainda Marcelo Pedrosa, informa que existe um site, o http://www.legendanacional.com.br, onde há um abaixo assinado dirigido aos parlamentares federais para que “a legenda para filmes nacionais garanta a acessibilidade dos surdos e portadores de deficiência auditiva ao lazer, com arte produzida no Brasil”

O abaixo assinado, em três meses, já havia recebido 4353 assinaturas, a maioria de São Paulo, onde um amigo dos pernambucanos colocou o site “na roda”. “No orkut, a turma também atua pela comunidade “legenda nacional”, diz Marcelo, informando ser ela hoje, com 780 membros, a maior comunidade de surdos e deficientes auditivos brasileiros da internet.

ACORDA, POVO DO CINEMA

E os meninos querem mais. Já encostaram na parede gente do calibre de Cacá Diegues que levantou uma questão importante, o custo da legendagem dos filmes. Que não é pouco. É mais uma pietagem, a legendagem e as cópias. Que não sejam todas, mas algumas. Marcélia Cartaxo, grande atriz brasileira, não se fez de rogada e este ano, vestiu a camiseta da causa. Letícia Spiller idem. A mobilização tem chamado a atenção de muita gente. Agora, quem sabe a sua também. 

O importante é que o desafio está lançado. Confesso que mesmo com toda a preocupação de ser politicamente correta e tendo trabalhado em organizações que defendem minorias, nunca havia visto este ângulo da questão. Só que, a partir do momento em que alguém a coloca diante de nós temos, aí sim, a responsabilidade de pelo menos buscar o diálogo para tentar resolve-la. 

AUTOESTIMA

A mudança de hábitos diante dos novos tempos e das novas tecnologias também se reflete no comportamento cotidiano da rapaziada recifense . Há algum tempo atrás, eles se reuniam em pequenos grupos em paradas de ônibus da capital pernambucana. 

Agora, o point é num shopping center, o Boa Vista. Nas terças à noite, quem frequenta o espaço já não estranha as animadas “conversas” travadas pela linguagem de sinais de parte da galera que encontra nos corredores movimentados do local. 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s