O R E I D A P R A I A

de Valéria del Cueto

Não era dia para ficar parada. Depois de uma maratona no computador a melhor coisa a fazer na praia era dar uma caminhada. Pela areia, com a marola lambendo os pés, aproveitando o fato da beira do mar não estar muito inclinada, o que costuma dar uma tremenda dor nos joelhos, além de ser totalmente reprovado pelos ortopedistas.

Minha proposta foi imediatamente aceita por JC. Nossa reunião havia sido marcada para o que chamamos de escritório, na Ponta do Leme, em Copacabana, no que considero de meu perímetro básico carioca. Foi de comum acordo que resolvemos transforma-la num encontro itinerante com um pouco de movimento e uma área maior de observação.

 O SAL E O SOL

 Era finalzinho de tarde e, devido a pouca audiência, o sol já estava querendo se retirar. As nuvens não eram pesadas, mas também não incentivavam a prorrogação da permanência no local, a não ser que, como era nosso caso, isso fosse irrelevante.

 Fomos até o meio de Copacabana e voltamos ao cair do sol. Foi aí que ele apareceu na nossa frente. Lindo, branco, de olhos azuis cristalinos. Tão a vontade que paramos descaradamente para observa-lo.

Primeiro, correu para a água, em direção das ondas sem medo ou hesitação. Vimos logo que era do ramo, se é que isso fosse possível. Destemido, enfrentava o mar com um intimidade  impressionante. E olha que estava gelado. Eu havia feito todo o percurso ficando arrepiada cada vez que uma onda safada molhava meus pés.

 Percebi que esta era sua diversão e também uma forma de enfrentar o calor que devia estar sentindo embaixo daquela montanha de pelos branquinha.  Ele entrava correndo, se virava de costas para o mar, se sentava e deixava a onda atingi-lo. Para proteger seus olhos azuis, dava para ver que franzia o  focinho. Devia ser mesmo delicioso.

Sua expressão era de prazer.

 DOMÍNIO

 Algo desviou sua atenção e ele saiu desabalado para a areia. Corria feito um louco de um lado para o outro. Era implacável sua perseguição aos pombos. Não estava nem aí para a coleira, feita de corda vermelha, que se enrolava nas suas patas traseiras, mas não o suficiente para atrapalhar sua missão.

 Não precisa dizer que a praia, naquele horário, estava vazia. Só tinha um dono. Um único dono. Aquele husky siberiano de olhos estupidamente azuis era o rei incontestável do pedaço. Desprezava e ignorava solenemente a corda que balançava enlouquecida e sem rumo, totalmente incapaz de assumir seu significado real: que a liberdade tinha um limite, seja lá qual fosse ele.

 NA MEMÓRIA

 Quem me conhece sabe que não sou chegada no mundo canino em geral. Tenho um medo visceral, um trauma de infância provocado quando fui alegremente recepcionada por vários cães numa visita a casa de amigos de meus pais. Os amáveis animais que me acolheram, loucos para brincarem eram pastores, rotweilers e similares e eu tinha apenas dois anos. Acho que deve ter sido um efeito bola, em que eu era a dita cuja. Acabei berrando de um medo que me acompanha pela vida a fora.

 Mas, aquela visão de domínio majestoso, nem mesmo meu triste passado me impedia de apreciar. Foi isso que fizemos, a uma distância respeitável, observando suas investidas contra os pombos invasores intercaladas com mergulhos refrescantes. Tudo sozinho, sem ouvir um grito, sem nenhuma interferência. Humana ou divina.

O DONO DO MUNDO

Um banhista com sotaque argentino que passava perguntou se o cachorrão era nosso, explicando que havia ido até a Pedra no fim da praia e voltado e o bicho estava ali, com a coleira, mas sem nenhum sinal do dono. Livre, leve, solto, sem eira nem beira.

 E assim ainda era. Pobres pombos que planavam pela areia, em busca de farelos e lixo, deixados pelos banhistas. O susto era grande e a adrenalina subia quando pressentiam a chegada do huskie enlouquecido. Que não sossegava enquanto os pássaros estavam a seu presumível alcance, fazendo curvas desgovernadas a cada guinada em busca de suas possíveis presas.

 Tentamos chama-lo (eu, a medrosa). Ele chegava perto, mas não deixava toca-lo. E corria novamente, se atirando no mar. Até que aquilo que acontece com qualquer banhista, mesmo os das melhores e mais tradicionais famílias de surfistas, aconteceu. Uma distração e uma onda maior, zupt, deu uma rasteira e o derrubou, tchabum. Tudo virou uma coisa branca só. A espuma e o pelo do cachorro. O rei do Rio tomou um caldo, ou uma vaca como dizem alguns. Ele voltou rapidinho para a areia e, via-se em seus olhos, havia se descoberto um autêntico cão sem dono.

Se você já foi pego de surpresa por uma onda, sabe muito bem qual é a sensação.

A BUSCA

Olhou em volta, farejou e começou a procurar. Primeiro, esquadrinhou uma área próxima. Foi ampliando as buscas e, finalmente, disparou pela areia em direção ao final da praia. Como era nosso caminho, seguimos andando no mesmo sentido, observando sua evolução.

Subitamente, ele mudou de rumo, embalou numa carreira e passou por nós desenfreado. Pronto, achou quem procurava, comentamos. Viramos curiosos, querendo ver quem era seu dono. Ledo engano. O huskie branco voltava para onde viera para garantir seu território, expulsando uma nova leva de pombos que, desavisados, tinham ido ciscar nos seus domínios.

Tarefa muito mais importante do que procurar o dono. Este, certamente viria atrás dele quando desse por sua falta. Fomos até a Pedra cogitando, afinal, quem mandava em quem. O cão, o dono ou os pombos invasores que descaradamente desafiavam a sorte por um pouco de alimento.

Vimos o sol se pôr entre os prédios de Copacabana, no Caminho dos Pescadores. Na volta, não havia mais ninguém. Nem o husky siberiano e seu dono, nem os pombos. Todos já haviam procurado seus respectivos abrigos para passar a noite. Só ficou o barulho das ondas do mar e do vento que balançava os coqueiros do calçadão demarcando o território  abandonado  e silencioso até o próximo amanhecer.

PS: Há uma lei que proíbe a presença de cães nas areias das praias cariocas, por isso, apenas um detalhe da foto, impedindo a identificação do “meliante”.

Valeria del Cueto é jornalista e cineasta

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