HÁ OS NÃO GOSTAM, ORA POIS…

de Valeria del Cueto

Se esta dando tudo errado, se não há mais para onde correr, eu paro o mundo, troco de roupa e vou a praia. Com ou sem sol. Bem aqui em frente de casa. Mesmo assim, em alguns dias, aquela nuvenzinha, seus raios e trovoadas te seguem…

A tarde ainda estava quente. Apesar do fim do horário de verão o sol estava lá. Firme e forte. E eu tomei seu rumo. A praia, quase deserta. Estendi a canga, respirei fundo e olhei o mar.

Estava no lugar de sempre, na chamada linha de frente. Meus vizinhos, longe o bastante, a ponto de não dar sequer para ouvir a conversa alheia. Eu e o mar… o barulho das ondas era um calmante maravilhoso. Mas estava inquieta. Me joguei na canga, resolvida a deitar, fechar os olhos e tentar, eu disse tentar, relaxar um pouco. Deixar o solzinho me aquecer e, se Deus quisesse, esquecer a vida. Só um pouquinho.

Muito pouquinho mesmo. Um movimento estranho me fez abrir os olhos. Foi com espanto que me vi diante de uma velhinha, lépida, fagueira, chapeuzinho, toalha e uma bolsa totalmente imprópria passando pela minha frente. Bem na minha frente, entre o sol e eu.

 A MURALHA

Respirei fundo e acompanhei seu trajeto. Que não se prolongou. Foram mais dois passos e meio. Ali, ela parou. E olhou para trás. Acompanhando seu olhar, fiz o mesmo. E la vinham elas iguaizinhas aos sete anões. Sete velhinhas, pensei estarrecida. Só que, para olhar as outras seis, descuidei da velhinha “Mestre” e, quando virei de volta, verifiquei aterrorizada que ela estava estendendo sua toalha exatamente na minha frente, entre o mar e eu !

Acreditem, o Leme. durante a semana é tão vazio quanto um latifúndio improdutivo, com vista exclusiva de frente pro mar. A não ser…

Confesso que fiquei revoltada. Não era uma, eram sete. Sete velhinhas, dos 68 aos 76, mais ou menos, sete toalhas, sete sacolas, sapatos e sandálias. Como uma muralha. Nem o meu olhar de raio da morte foi capaz de destruir esta “parede humana” que se interpunha entre meu objeto de desejo, o mar, e eu.

Quando a gente está com aquela nuvenzinha e assim. 38 no I Ching. A OPOSIÇÃO. Não adianta. Sete velhinhas? Só? Naaaao. Tinha um coroa também. De boné, calção e… um sapato de fazer hidromassagem. Aquele detalhe me inspirou. Fazer o que? Se temos o limão, vamos a limonada, né? Melhor é não pensar, que é pra não ficar irada. Eles estavam ali, a dois passos, tirando saias, blusas, shorts, camisetas. Arrumando tudo em cima de suas respectivas toalhas. De banho. Felpudas, algumas grandes. Uma, particularmente enorme. Quase um lençol. Toalha de banho.

Bastou a senhora residente se estender em cima dela e minha visão espacial que, sem modéstia, é apuradíssima, informou que a toalha daria para embrulhar completamente sua ocupante e ainda sobraria uma toalha normal para enxugar outra das senhoras presentes.

A ORIGEM EXPLICA

Bom, para esta limonada ficar tragável, só falta o açúcar. Eu, que não havia entendido como e por que alguens, com uma praia inteira a disposiçãao, aventava a possibilidade de barrar a visão de uma residente solitária, resolvi que, já que eles estavam ali, por livre e espontânea vontade, eu tinha o direito de observá-los descaradamente. Abri meus olhos e ouvidos.

– Que fina areia esta a sujar meu abrigo. O sotaque era pronunciado. Uma é portuguesa, pensei, observando o desfile de antigos maios Catalina, aqueles das misses, com os elásticos ja gastos dando palinhas de gordurinhas e gorduronas. Duas delas, mais magrinhas e ousadas estavam de duas peças. Uma, tipo roupa de ginastica. A outra, lindinha, de duas pecas anos 60.

– Ai, pa, podemos ver o Cristo Rei? O Pão de Açúcar parece-me envolto em fumo…

A ficha caiu! A muralha era inteirinha lusitana. Por isso, a escolha cuidadosa e calculada da localização… turistas portugueses. “Fiquem perto de um habitante local”, deve ter dito o zeloso guia da excursão. “A vista.” Ta bom, mas não precisava exagerar. Não tão a vista. Não bem na frente.

Relaxei e decidi fazer um exercício. Mental, gente. Era mais fácil bancar a salvavidas de onde estava. Da minha canga observatório. E, por que varias resolveram experimentar a água. Não todas ao mesmo tempo.

– Não podemos abandonar os pertences, disse uma delas, prestando atenção na minha reação.

Fiz de conta que não era comigo. Não esbocei nenhuma reação e  por uma razão muito simples. Era muita coisa. Coisa de turista. Com cara de tralha de estrangeiro. Se por uma falta de sorte, um marginal qualquer resolvesse fazer a limpa, eu não teria bracos suficientes para proteger tantas bagagens. Só se fosse polvo.

 AL MARE

Seis foram para a água, o casal ficou. A senhora tinha um problema na bacia ou na perna e levou um tempão para sentar. Precisou, e muito, da ajuda do marido, o terreno era um pouco inclinado ali na frente. Tao lindo um casal idoso. Se ajudando de forma carinhosa e solicita.

O banho de mar estava supimpa. As ondas quebrando longe, baixas demais para os surfistas, perfeitas e receptivas, pensei comigo mesma, satisfeita com a impressão que meu local predileto estava deixando nas turistas.

A velhinha da toalha gigante retornava e se estendia satisfeita nos seus vastos domínios. De barriga para baixo, com seu maio verde pálido quase musgo, olhando os arredores, parecia uma tartaruguinha assustada. Ela torcia pelo casal, já que o marido tentava ajudar sua cachopa a se levantar. Estava difícil. Ele ensaiava um pêndulo segurando sua gaja pelas mãos, mas morrendo de medo de cair sentado diante de todas. Fiquei imaginado se os sapatos de hidromassagem de borracha, que ele não tirara do pé, ajudariam ou prejudicariam sua performance. Outra das misses que saia da água veio em seu auxilio. Ele dispensou a ajuda, fez mais um esforço e, u-pa-la-la! Içou a patroa.

AI JESUS, VIVA O CRISTO REI

E lá se foram em direção ao mar, cruzando com outras duas que voltavam, reclamando da temperatura da água. Proseando elas chegaram e se acomodaram. A tartaruguinha ouvia. O assunto era o passeio.

– Estou tao exausta que a noite não durmo de tao cansada, disse a primeira.

– No período de Angra dos Reis foi mais agradável, comparou a outra. – Aqui esta tudo descompassado. Não viste a outra, que atrasou-nos a todos por que queria ir arrumar os cabelos? Depois só tivemos correria.

– Não comprei nada.

– Pudera, mal entramos na loja e lá estava o gajo, apressando a todos nós. Gosto de escolher o que valha.

A tartaruguinha entrou no assunto para amenizar o clima dizendo que havia adorado a visita ao “Cristo Rei”. As outras duas ignoraram o elogio ao Cristo Redentor e continuaram as lamentações. Ainda precisavam comprar muitas lembranças e prefeririam ir as compras aquela praia com o mar gelado.

Neste meio tempo, o casal havia retornado, com uma das moçoilas de duas pecas e outra miss. As duas últimas foram para seus postos na extremidade oposta da muralha. Portuguesas, sim, com certeza, comprovava o s dizeres do boné colocados por uma delas: JUNTA DA FREGUESIA DE SILVADE.

MOTIM A BORDO E A ESTIBORDO

A revolta ganhava corpo no grupo maior contra a programação da excursão. E estar ali parecia ser uma forma de submissão ao programa ditatorial.

– Estes meus óculos que me custaram mais de cem euros estão cheios desta fina areia, reclamava a mais mandona.

– Para tomarmos sol, melhor ficarmos no nosso cinco estrelas. La tem mangueira, relva e bancos, lembrava outra.

O marido, vendo que sua esposa entrava na onda, discretamente se retirou para o lado e começou uma operação complicadíssima: enrolou-se numa das toalhas tão grande que arrastava na “fina areia” e tirava seu calção molhado. Depois, começou a enxugar vigorosamente as partes íntimas. Pudicas, as cachopas desviaram os olhos, enquanto continuavam as lamurias. Só sua esposa viu preocupada, quando um dos cães que passeavam no fim de tarde chegou correndo e se pôs a farejar o gajo que,. tropeçando nas beiradas generosas da toalhona, tentava evitar o bicho, o tombo e ainda fazia um esforço danado para botar os pés com seu acessório de borracha, dentro da bermuda, para vesti-la o mais rápido possível. Ali, com a bermuda cheia da areia trazida por seus sapatos de hidromassagem, acho que o humor dele foi, definitivamente, para o Tejo.

Depois disso foi mais um a sugerir que se dirigissem para a Esplanada. Não entendeu? Pro calçadão, onde os esperava o conforto do ônibus e a companhia do amável e impopular guia da excursão. Todos se vestiram.

 TUDO COM DANTES, NO QUARTEL DE ABRANTES

Subitamente, as toalhas foram levantadas, enchendo a mim e a canga de finíssima areia. O sol caía. Começava a esfriar graças a sombra projetada pelo hotel Meridien. Cansei e resolvi também tomar meu rumo. Meu consolo, pensava eu, era que pelo menos elas e ele haviam tido o privilegio de conhecer um lugar inesquecível, o Canto do Leme.

No meu passo regular alcancei os patrícios reunidos no quiosque em frente. Alguém contava os excursionistas. Outra chamava os que preferiram ficar pelo calcadão ou conhecer o Caminho dos Pescadores, na Pedra.

Sorri, pensando no prazer que é morar neste lugar, hoje compartilhado com velhinhos tao simpáticos de além mar, esquecida dos problemas que me fizeram correr para o meu refúgio. Foi quando ouvi a miss revoltada afirmando:

– Não vi novidade alguma neste passeio. Pura perda de tempo. Preferia ir as compras a conhecer esta paragem. Estaria melhor num shopping ou descansando no hotel.

Definitivamente, aquela maldita nuvenzinha ainda estava por ali e insistia em me fazer companhia…

 Valeria del Cueto e jornalista e cineasta

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s