Escravos da Mauá

Muitas estrelas pelo samba, aparentemente grande, mas bem bolado. Todo mundo cantava, mesmo quem não sabia a letra. Outras estrelas mais para o tempo: chuviscou na abertura e no encerramento caiu um tremendo pé d’água. A animação também foi ótima, apesar da superlotação.

Péssimo foi tocar o hino do Corinthians na concentração e o cavaquinho abrir seus solos com “Ilarie” da Xuxa. A primeira performance foi vaiada, a segunda passou desapercebida pelo imaginário da maioria do bloco, composta por uma garotada sarada e acostumada ao tema.

 CRONOLOGIA DA FESTA

Primeiro, a batalha para estacionar, vencida com a típica sorte de iniciante dos que nasceram de …pra lua. Não eu, gente, meu cunhado que dirigia o veiculo! (pensando bem, fui eu quem vi a vaga…) , a chegada um pouco antecipada, e a leve chuvinha para refrescar.

GPS 01

Quando você chega, pega o celular para tentar localizar amigos e chegados. Desiste. É muito barulho. Ai, é melhor comprar a primeira cerveja ou dar o primeiro gole na garrafinha de vodka que ainda esta geladinha no saquinho plastico que em breve será dispensado na sarjeta.

Mais colocado, o próximo passo é achar um bom ponto de observação. Ele varia de acordo com suas intenções, que podem ir de se dar bem no bloco, sair com sua turma de praia, encontrar velhos conhecidos de outros carnavais, esquecer os desmandos do patrão ( lembre-se que estamos no centro da cidade, na Praça Mauá), lançar sua pasta de office boy para o alto ou amarrar sua gravata de executivo na cabeça e cair no samba. (Esta ultima opção ainda é super comum). São muitos, de todas as idades, com todos os tipos e feitios de ternos. Hoje, os office boys, com pastinha na mão, tradicionais responsáveis pelas alas de passo marcado, são como animais em extinçã: ou mudaram de profissão, ou trocaram o lay out. Quem sabe, desistiram das alas de passo marcado, o que faz que passem ignorados na multidão.

Multidão é a palavra certa para descrever o que outrora eram quarenta gatos pingados evoluindo pelo percurso. São dois carros de som. É pouco. Depois dos fogos da igreja de São Francisco, no primeiro meio silêncio, o segundo frenesi.

GPS2

Se você não está falando no celular, tentando localizar suas bases, acaba se sentindo um estranho no ninho, uma ilha cercada por gente berrando sozinha nos seus aparelhos íntimos por todos os lados. Se não tiver um celular, faça de conta que tem, que é para não se sentir deslocado. É claro que ninguém consegue falar com ninguém. Uns, mais espertos – e modernos-, apelam para os torpedos. Mas com sofisticação: mandam as mensagens e ligam para o vibra call avisando que elas estão la. Para gáudio e alegria das operadoras, que em breve anunciarão o aumento significativo de ligações nos horários de picos de saída e chegada dos blocos cariocas.

ABRAM ALAS

Bom, o bloco conseguiu sair. Ninguém se encontrou, a densidade de sambistas por centímetro quadrado ainda é imensurável, devido a falta de espaço útil para a instalação do aparelho medidor, mas… saiu. Atrás muito mais cheio que na frente, para onde seres que estão acostumados a respirar tentam se dirigir por caminhos intransitáveis.

O samba é bom, o bloco está animado e é hora de mais alguns goles de vodka para reacender os Ânimos. Se você toma cerveja, deve estar pela sua terceira latinha. Por falar nisso, muito válida a intenção de impedir que os vendedores invadam os blocos. Eles ainda insistem, mas vão acabar se acostumando a fazer a “guarda de honra”, andando das laterais e não atrapalhando o desfile. Que não haja nenhum temor em relação a diminuição do consumo: onde já se viu bloco sem cerveja? A procura sempre vai sustentar a oferta. Generosa mas, agora, melhor organizada.

E rola bloco, já da para respirar e até ensaiar uns passo já na frente do carro de som. Ou será que foi por que entramos na Avenida Rio Branco? Que seja. Subitamente, além dos foliões estilo baianos, que insistem em pensar que aqui se brinca carnaval com abadás de micaretas e trios elétricos soteropolitanos, um novo grupo corta na diagonal a extensão do bloco. Eles não cantam nem o refrão, estão mais vermelhos que o normal e não se largam de jeito nenhum. São trabalhadores? Office boys? Trabalhadoras da Praça Mauá? Nãaaaao é uma excursão de turistas. Uns 30 mais ou menos, achando aquilo tudo tremendamente pitoresco, impressionados com os beijos, amassos e tanto suor se misturando ao som do samba do bloco, totalmente incompreensível para eles. Mas afinal, quem se importa?

 CHUE CHUÁ

O resto é festa. Pra tudo mundo. Até as proximidades do retorno a Sacadura Cabral, rua de onde o bloco saiu. Aí, junto com o vento que prenuncia a chuva que ameaçava na concentração, recomeça a festa das operadoras de celulares. Todo mundo quer falar com alguém no meio do barulho e da confusão do bloco. Barulho acrescido do da chuva que começou a cair. Cada vez mais forte.

Quem se importa? Alguns dispersam, para satisfação dos taxistas que penam engarrafados nas ruas adjacentes. A maioria dos animados foliões, não está nem aí pra chuva, ou pra gripe que pode ate prejudicar os próximos dias de maratona carnavalesca, que está apenas começando. O que vale é ser escravo por um dia e poder transformar o terno em fantasia, no desfile que ano a ano aumenta os libertos do centro da cidade, os Escravos da Maua.000013-Paetes-dependurados

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