No Leme, 18 é pouco. Do resto, não sei dizer.

No-Leme,-18-é-pouco.-Do-res amarelotexto e foto de Valéria del Cueto

janeiro de 2006

 Ano novo caderno novo, vida nova… Projeto enquanto coloco, no alto da folha do caderninho ainda engomado a data de hoje. Pauzinho, bolinha, barrinha, bolinha, pauzinho, barrinha, bolinha, bolinha mal calculada. 10/01/06. É isso aí. Da Ponta do Leme, beira de Copa, orla do Rio, sudeste do Brasil… 2006.

Antes da avaliação climática de praxe, respiro fundo… e inspiro areia e chuviscos do vento que, em rajadas irregulares e mal calculadas, macula o dia clássico de verão. Só há um jeito de sobreviver. Se entregando ao som inconstante e a seus significados intrínsecos: areia, sal, calor e vento. Não necessariamente nesta ordem…Ordem?

 Tempo enganador. Não dá para notar o sol que castiga, amenizado pelos rasgos de ventania. O mar tem carneirinhos também inconstantes. E, se está para peixe, certamente, não quer papo com os banhistas que tentam encarar sua água gélida.

Disseram-me. Eu vejo e, por isso, dispenso apresentações pessoais. Perguntei para o cara que pediu para cuidar dos óculos, chaves e havaianas, enquanto ia dar um mergulho, quando ele voltava, um tempo depois da empreitada. Só confirmei o que já havia observado através das atitudes dele.

Seguiu para a água todo animado. Quando atingiu a faixa de areia dura, recém molhada pela última onda mais espraiada, reduziu discretamente o passo e continuou corajosamente em frente. Sua disposição diminuiu visivelmente quando a próxima marola mais afoita lambeu seu pé.

A primeira onda que chegou a altura de seu tornozelo fez com que os músculos de seus ombros se contraíssem e os braços se elevassem numa posse de gaivota querendo voar. Eu disse que a primeira onda pegou só um dos tornozelos? O outro estava elevado fugindo do encontro inevitável com o mar gelado. Vamos trocar a imagem da gaivota pela da garça. É mais “d´acord”.

Foi nessa fase que ele ficou mais tempo. Com a água pela canela. Tentando convencer seu cérebro a guiá-lo mar adentro. Explicando para seus nervos, músculos e esqueleto que não ficariam ali para sempre. Era só um mergulho refrescante. Achei que não ia encarar o desafio de frente…Fiquei olhando um tempão.

E ele lá. Na beirinha.

Uma rajada mais forte de vento e maresia encheu meus domínios de areia. Canga, bata, chinelo… Nada ficou incólume. Tentando salvar meus pertences e os do cara de serem soterrados, desviei minha atenção. Justo no momento do mergulho.

Quando recuperei os sentidos, embotados pelo vento e pela tempestade de areia, o momento crucial havia se perdido. Já disse em outras eras e volto a repetir. Como na vida. Focamos nosso olhar e/ou sentido, aguardando um momento único, raro. Deixamos de olhar em volta. Mas “motivos de força maior” acabam desviando a atenção. A ação acontece, o momento passa. Horrível.

Não, não a sensação. Esta, é de ter sido inadiável. Ser sempre inevitável. De que perdemos o bonde. Que bonde? Nunca saberemos. Horrível é a resposta, quando indago ao banhista sobrevivente sobre a temperatura da água, depois de ter recuperado seus pertences, enquanto agradece e se despede, perguntando gentilmente sobre o que estou escrevendo, tão concentrada.

Sobre o dia, sobre a Ponta, do Leme, respondo engolindo a maresia e um pouco de areia trazida pelo vento leste, incomum nesta época do ano, de água estupidamente fria: 18º não é para qualquer banhista.  Paciência. As rajadas estragam a minha praia, mas fazem a festa de outros que também amam o mar: a tribo do  windsurf. Bons e inesperados ventos abrem o ano de Iansã.

Valeria del Cueto é jornalista e cineasta
liberado para reprodução com o devido crédito

http://delcueto.multiply.com

Este artigo faz parte da Série “Ponta do Leme”, composta por: “Onda, Pedra e Maneiras de Ver o Leme”, “A Vingança do Gato Preguiçoso”, “ E o Rapa Levou”, “Até onde a Vista Alcança”, “Pré Visões do Tempo”, “O Rei da Praia”, “ Há os que não Gostam, Ora Pois”, “N.G. por V.d.C.” e outros mais que ainda virão….

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