A pressa é inimiga da perfeição

(Mas, cá entre nos, demorar 7 anos para fechar o projeto de um curta metragem já é demais!)

Puxa, acredite quem quiser, mas já interrompi o que ia dizer. Me perdoem, mas e a força do hábito. Reparem que meu ultimo manuscrito publicado (“E Hoje só, Amanha…” – 11/set, A Borda) foi redigido logo depois de encerrar o projeto do documentário “SEM FIM de Vila Bela”, para o edital no. 7, do Ministério da Cultura, ha uns quase 15 dias atras. E nada mais escrevi. Ao recomeçar a digitar, voltei ao útero cinematográfico e reflexos irreprimí­veis dominaram minha ação. Vou explicar: tive que parar tudo para enquadrar meu novo texto no padrão “edital Minc: Times News Roman, 12; entrelinhas 1,5; margem direita 1,5 e esquerda 2,5cm. E isso, ai: a forca do habito. Burocracia e ví­cio e se propaga…

Desculpem a introdução, mas é que sinto quando estou sendo dominada por ações que não combinam e/ou coadunam com minha personalidade. Sei que sempre saio perdendo, mas o que fazer? O dia em que encarar com naturalidade a rotina intrí­nseca do ó­cio maior que me domina, pra que fazer cinema? Ficarei satisfeita e me especializarei em apenas cumprir funções burocráticas e regulatórias. Olha, acho ate que poderia ganhar muito dinheiro nisso, deixando para trás esta vida de equilibrista, no picadeiro em que minhas pretensões cinematográficas me lançaram…

Mas não é disso que gosto, nem esta rotina se entende muito bem com minha personalidade. Se assim fosse, por que tantos e tao rocambolescos percalços estariam sendo enfrentados neste momento decisivo, em que tento fechar as contas do curta metragem?

 NOS IDOS DE 97

Tudo bem, vocês devem estar pensando o mesmo que ouvi logo que entrei com a papelada do projeto do filme no Ministério da Cultura, na ultima década do seculo passado, de um funcionário antigo, experiente e disposto a dar um conselho que eu, definitivamente, não estava querendo registrar (sabia que me lembraria dele um dia, quando fosse escrever sobre esta saga): “Muda o nome do seu filme, minha filha, que esse negocio de “Historia Sem Fim” tem cara de coisa que não vai acabar nunca”, disse-me ele, por cima de uma pilha de processos, todos parentes por afinidade do meu, que fresquinho, ainda estava bem fininho, no alto da pilha. Claro que, novata em folha na gincana, não dei ouvidos ao cara, pensando com meus botoes. “Como um filminho de 15 minutos pode não ter fim?”

Hoje entendo perfeitamente o aviso do funcionário que só deu este palpite movido pelo fato de sermos oriundos do mesmo estado (e, certamente, preocupado com a fama que nossa unidade da federação alcançaria no Ministério, caso seu pressentimento se concretizasse).

Realmente, um curta metragem chamado “Historia Sem Fim… do rio Paraguai – a Expedição” tinha cara de infindável, jeito de interminável e características que o levariam a ser um dos destaques daquela pilha que me impedia de ver mais do que os olhos e os cabelos do funcionário camarada. Senão vejamos. Vou contar pouco, só os últimos passos, o resto conto depois ou deixo por conta da imaginação dos leitores amigos.

 PROCURA-SE

Sabe a nota fiscal de maior valor do orçamento de finalização? Não? Vocês não sabem, eu não sei, nem tampouco o eficiente funcionário que expediu a dita cuja pelo correio. Do Rio de Janeiro, para o Rio de Janeiro. Creio que ela se perdeu antes de entrar no Leme, bairro em que moro. Desconfio que ela deu uma parada ali pela altura da Belfort Roxo, encantada com a vida noturna que agita aquela mal falada área de Copacabana. Parou numa boate, deu uma olhada nas meninas, nos frequentadores, gostou dos produtos consumidos e prazeres usufruidos e achou mais interessante extraviar-se do que ser metida em alguma pasta de arquivo morto de um contador qualquer. Sumiu. Ninguém sabe, ninguém viu.

A solução foi a preparação de uma nova nota, esta sim, entregue em mãos, que e para não  haver rebelião possí­vel.  Assim que ela chegou, tratei de cola-la numa folha A4, conforme especificações da contabilidade. Sem chances reais de uma fuga desesperada ou um desaparecimento súbito.

 ESTADO DE GREVE

É pouco? Não. Nem é só. Fiz um pagamento pelo Banco do Brasil de Cuiabá, de um “invoice” da permissão de uso do sistema DOLBY, para a sede da empresa em Los Angeles. O BB ficou de me mandar, por malote, os recibos para a agencia co-irma do Leme. Faz mais de um mês. Primeiro, era demorado mesmo. Depois, o banco entrou em greve causando-me um dilema existencial. Mesmo com a corda no pescoço, ja que meu prazo para a prestação de contas esta se esgotando, como ficar enchendo o saco dos grevistas?

Justo eu, que como pessoa fí­sica sempre fui solidaria e procuro não atrapalhar a greve alheia? Esperei o quanto deu e resolvi ligar para o banco e pagar o mico de ouvir um dos paralisados me perguntar, antes de ter a chance de expor o meu drama: “Você não sabe que estamos em greve?”

E claro que sabia, o que não sabia era que a associação dos malotes do BB tinha começado a sua paralisação antes dos funcionários de carreira… A greve deles tinha dez dias, a dos malotes, mais de um mês e meio. Tempo insuficiente para que os meus recibos percorressem os 2.100 quilômetros que separam Cuiabá do Rio de Janeiro. E ainda tive que explicar com toda a calma para o funcionário carioca o que e que eu, uma correntista de Cuiabá estava fazendo aqui no Rio e por que não me deslocava ate o Mato Grosso para buscar os documentos que queria…

Mais uma vez tive que apelar para os chegados. Ou seja, usando a pouca fama de repórter que me resta, conseguir que uma santa alma em greve la do Banco do Brasil de Cuiabá me mandasse a documentação pelo correio, o meio mais seguro e rápido…

Este era meu pensamento inicial. Depois de alguma reflexão deduzi que, na verdade, eles estão fazendo o possível e o impossí­vel para se verem livres de uma chata que só vai sair do pé deles quando aprontar o filme, fechar a contabilidade e consequentemente, a conta do projeto no BB/Cuiabá.

Vou confirmar minha teoria em breve, quando for convidar estes santos funcionários para o lançamento do curta metragem em Cuiabá. Se houver a menor insinuação de que e melhor ir abrir minha próxima conta de projeto cinematográfico em outra freguesia, quer dizer, agencia do BB, e por que, definitivamente, eu não agradei ou estourei o tempo regulamentar de encheção de saco dos ma-ra-vi-lho-sos funcionários da agencia que tao bem me acolheu.

NAÇÃO RUBRO NEGRA

O saldo disso tudo e a amizade eterna de um gerente que tem um laco permanente de ligação comigo: ao longo de nossa convivência protocolar, descobri que somos ambos flamenguistas. O que, confesso, já me fez esperar dias melhores para ligar fazendo alguma solicitação para ele. Como relembrar nossa afinidade rubro negra, por exemplo, depois de perdermos o tí­tulo para o Santo Andre? Ou agora, quando fomos eliminados do sul americano apos o empate por 2 a 2 com o Santos, ao 47 do segundo tempo e a atuação magistral de Dill, perdendo um penalti quando ti­nhamos a vantagem conseguida com o suor de Julio Cesar, que havia defendido o chute de Deivid? Tento respeitar os momentos de alegria da torcida rubronegra para delegar missões quase impossíveis para meu amigo flamenguista, apesar de ultimamente não ter tido muitos momentos oportunos para tais pedidos, devido a colocação do Flamengo na tabela do campeonato brasileiro.

 CAUSO E CASE

Ta acabando. So falta mais um causo (ai­ no Mato Grosso), ou case (na “atitude” linguí­stica corrente) para encerrar minha narrativa. Ainda ligado ao “invoice” da DOLBY. Recebi um telefonema dos representantes da empresa no Brasil informando que o pagamento da licença havia sido feito em duplicidade. É isso mesmo. Pagamentos em dólar tem que ser feitos via Brasí­lia, é o que me informou na época a gentil funcionária do setor de cambio do BB de Cuiabá, encarregada de resolver os tramites legais para fazer a remessa. Assim foi feito e, até segunda ordem ou o fim da greve, consta que da minha conta-projeto saiu o correspondente ao valor de um unico invoice Dolbyano…

Só que, agora, a Dolby quer instruções para a devolução do valor pago em duplicidade. Sei que você vai dizer para eu deixar de ser trouxa e mandar eles devolverem o dinheiro que eles consideram como tendo sido pago a mais. Também pensei nisso. Ia ser um caso único: uma licença “elas por elas”. Porem…em conta captação (a minha) não pode ser feito deposito que não seja de valor captado através da lei de audiovisual. E esta fonte já sequei ao captar o total permitido faz e tempo…

A EXPEDICAO/RELATORIO

Duas coisinhas básicas para encerrar o artigo, o que está sendo muito mais fácil do que terminar meu projeto. Primeiramente, não sou conservadora, por isso, seguindo o conselho do funcionário do Ministério da Cultura, mudei o nome do filme. Agora e sempre (a abertura e os créditos já estão filmados e encaixados) meu curta metragem se chama “Historia Sem fim… do Rio Paraguai – O relatório”.

Hoje não me iludo. Sei que a expedição que gerou o filme teve vida muito mais curta do que eu gostaria e, por isso, podia não fazer parte do tí­tulo do curta. Quanto a vida de cineasta independente brasileira, esta sim, é um relatório sem fim, seja seu filme rodado no rio Paraguai, em Vila Bela da Santíssima Trindade ou em qualquer localidade deste Brasilzão de Deus.

Para terminar, uma última informação. Por um problema não detectado, apesar do projeto ter caducado, a grana idem, idem, a contabilidade estar sendo fechada, o filme ainda não esta pronto. O master esta sendo todo refeito num trabalho minucioso do laboratório por conta de uns pulinhos intermitentes e quase invisí­veis que aparecem em 40 % dos 230 cortes do curta.

A Historia, Sem Fim, como você pode ver, ainda não terminou…

PS: Um chegado pentelho, ao ouvir minhas palavras, perguntou qual o publico que se interessaria por esta narrativa. Não quis dar o braco a torcer, reconhecendo que só o fato de ter feito este desabafo esta economizando uma puta grana de analista, (numerário que, alias, não disponho no momento para desabafar minhas frustrações). Por isso, mostrando minha faceta generosa e bondosa, expliquei que achava que cabia a mim relatar estes fatos, como uma forma de prevenir futuros cineastas e aspirantes a produtores, sobre as vicissitudes que temos que enfrentar para realizarmos nossos projetos, por menos ambiciosos que eles possam parecer a primeira vista. Depois, achei que poderia expandir meu publico alvo incluindo aí­ todos aqueles que querem fazer cultura no Brasil, principalmente fora dos grande centros. Finalmente pra tropicalizar, cheguei a conclusão que este assunto e minha saga serviria como exemplo, também, para qualquer cliente do Banco do Brasil…

PS2: Mais fotos desta incri­vel ultrasonografia cerebral di­gitorelatorial no flickrValeria e Humberto Mauro

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