GETÚLIO VARGAS, 50 ANOS DEPOIS

Por Valéria del Cueto/ agosto 2004

Os dedos deslizam pelo braço vagarosamente. O olhar, carregado de lembranças, traduz a saudade. A mão castigada passeia pelo ombro, querendo ajeitar a gola do paletó impecável. Um passo mais próximo. A vista desviada para a escada procurando a melhor posição, meio de lado, quase de frente, mais perto. Com as escadarias suntuosas se dividindo ao fundo. Ali é o lugar dele.

Uma leve hesitação o paralisa. A mão treme, nervosa. O corpo se retesa. Primeiro, um toque direto. Brusco até, como se esperasse uma reação. Pelo menos, a contração involuntária de um músculo facial. Depois, um carinho, um longo e nostálgico carinho no rosto da figura inerte, feita de bronze, que domina a entrada do palácio do Catete, onde funciona o Museu da República. Vargas está lá, a postos, recebendo todos os que visitam a exposição “Getúlio Presidente do Brasil”, aberta no dia 24 de agosto. Uma terça feira cinzenta, como pode ter sido a mesma data, 50 anos atrás.

A expressão distante do homem que, depois, disse ter 14 anos quando Getúlio se matou, mostrava que ignorava o movimento em volta. Naquele momento, não estava sendo aberta uma exposição, não havia autoridades, patrocinadores, artistas, familiares, repórteres, crianças de escolas públicas, os mis e gentis representantes do staff do museu, composto de guias, seguranças, vendedores de brindes e da moeda cunhada para comemorar os 50 anos de suicídio do ex-presidente. Não havia ninguém. Ele estava lá. Onde sempre deveria ter estado.

Incrivelmente conservado, diante do visitante que já passa dos 68 anos. Exatamente como era nos dias em que, contou, Vargas ia a pé tomar cafezinho na Praça XV e trocava dois dedos de prosa com outros que, como ele, trabalhavam na pesca. Ainda mais que morava na Glória e sempre o via andando por lá, como uma pessoa normal. Daí, para a carteira de trabalho, foi um pulo. Por que foi ele que fez. Ele, que nunca deixaria de receber um trabalhador que batesse alí, na porta do Catete pedindo ajuda, afirma com convicção.

Tudo isso, na entrada, após caminhar, no máximo, 10 passos no saguão. Assombrado por uma enorme figura pendurada no centro da escadaria de Gregório Fortunato. O Anjo Negro de Getúlio. Anjo negro de asas brancas. Para o qual chamei atenção. O olhar volta novamente no tempo enquanto afirma com segurança de quem foi íntimo: O presidente não sabia. Não era homem destas coisas. Ele acorda, e vê que as lembranças nem começaram a transbordar, ativadas pelas peças expostas por grande parte do Museu, que ele não sabe onde começa, tão tonto ficou com aquele primeiro encontro.

Mergulho na história Respiro fundo, pedindo uma trégua no sentimento de estar vivendo a história. Pelo dia, pelo local, mas, principalmente, pelas pessoas que acabei ouvindo enquanto percorria os salões do palácio. Não resisti ao velho vício de repórter e deixei-me tomar pela curiosidade característica da profissão.

Na sala dos lendários arquivos do DIP, outra narrativa sobre o suicídio. Segundo um senhor o tiro não teria sido às 8:30 da manhã. Esta teria sido a hora que anunciaram oficialmente a morte. A memória não falhava, por isso, sabia que no interior de Minas onde, pelo radio, acompanhou todos os lances que aconteciam na capital, a notícia da morte de Getúlio havia ido ao ar, ainda sem confirmação, às 8 e 15 da manhã. Portanto mais cedo do que o horário informado. Ele é fiel em sua devoção. Todos os anos vai na missa rezada no Rio pela família Vargas no dia 24 de agosto. Diz também que gostaria de conhecer o túmulo do presidente, em São Borja.

Este eu conheço.

Apesar de ter pavor de cemitérios, foi lá que fui parar no dia em que Leonel Brizola voltou ao Brasil, depois do exílio. Eu, era repórter, Brizola queria visitar o túmulo. Logo, fui para o cemitério. Confesso que não deu pra ver muita coisa, a multidão cobriu a paisagem, tirando qualquer possibilidade de reconhecimento do terreno. Se não dava para achar a localização, o mesmo não podemos dizer da emoção provocada pelas palavras de Brizola. Sinceramente, não lembro quais foram. Se estivesse escrevendo uma matéria poderia relatar óbvio, aquilo que certamente aconteceu. Mas não preciso. Fico portanto, assim como muitos que ali se encontram, com a lembrança do sentimento.

O caminho da morte.

Despeço-me do mineiro retardando o passo quase na entrada da instalação que leva ao quarto onde Getúlio se matou. Tudo escuro. Luzes direcionadas para amontoados de coisas pintadas de branco e distribuídas num caminho demarcado por cortinas de tule negro. No alto do primeiro amontoado, esticadinho, o pijama que ele usava, perfurado pela bala. A mancha de sangue desbotou ao longo dos últimos 50 anos.

Seguindo o caminho sinuoso, outra pilha. No topo, dentro de uma redoma de vidro, a bala. Mais para a frente, o revólver e duas possibilidades: ir em direção ao quarto em que reuniu, há 50 anos, todos aqueles objetos ou se enrolar um pouco mais no caminho do tule negro, em direção ao centro da sala. Fui por aí. No meio da instalação, no alto da maior pilha de velharias brancas, um lenço. Um lenço colorado.

No quarto de Getúlio, os objetos são frios e distantes. Econômicos. A poltrona, o armário, a chaise-de-longue e a cama presidencial. Quando o encontraram, estava sentado, com o corpo caído de lado. A cena foi descrita por Guilherme Arinos, secretário particular, enquanto percorria, com Celina Vargas, neta do presidente, as instalações da exposição.

O mito sobrevive

Novamente em frente a estátua em tamanho natural no saguão, observo a mulher pedindo para um dos rapazes que a acompanha que tire fotos com a câmera digital. Primeiro dela, ao lado do presidente. O rapaz tira. Chegando mais perto, passa a mão pela cintura larga de Getúlio. Insiste com o rapaz, mais uma. Como não há reação, olha em volta, se anima e se aninha no ombro da estátua. O rapaz protesta, os outros acham graça. Mais uma foto. Ela chama um dos adolescentes, depois chama todos, que entram na brincadeira. Um flash a mais. Então, se entrega e, na despedida, sapeca um beijo na bochecha gelada de Getúlio. Olho para o fotógrafo, desesperada. Acho que ele me entende e bate a foto. Todos saem juntos, felizes. O fotógrafo confere as clicadas. Interrogo-o com o olhar. Ele faz que sim, sorri, se junta a mulher e ao grupo. Ela, relembra o dia em que conheceu Getúlio, a muito tempo atrás, há mais de 50 anos. Outros tempos, o mesmo mito.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s